quinta-feira, 28 de julho de 2011

Além da alma


Eles estavam lado a lado. Não se olharam, não deveriam praticar tamanho ato obsceno. Era um dia chuvoso, estavam indo para o mesmo lugar, sem combinar, sem premeditar, apenas iam. Algumas pessoas os acompanhavam, de forma esparsa, sem contato. Ele resolve acelerar o passo, não queria olhar, não queria trocar olhar, não queria contato, se pudesse, ali, ele voaria. Mas não deu, quando ele acelera o passo, olha para esquerda no mesmo momento que ela a direita, seus olhos se acariciaram, envergonhadamente.
Já a alguns passos à frente ele percebe que ela também acelera o passo e queria ultrapassá-lo (ela não ficaria para trás) e consegue, por ele não teria nenhum problema. Ela segurava um guarda-chuva, uns cadernos além de uma mochila no ombro direito. Quando no inesperado, ela tropeça, não chega a cair, conto se atrapalha um pouco deixando a mochila cair, estava envergonhada. Ele se aproxima, amolece-se (como de costume) e pega a mochila dela, que agradece sem olhar.
Não se olhavam, era proibido.
Lá pelas tantas, passos a esmo, ventos ao cabelo, delícias gélidas e eles tocam braço com braço, ele desliza até a mão dela e a segura, ele tremia, ela aceitava, entrelaçaram os dedos de uma forma cosmicamente natural. Mas não, continuavam a não se olhar, trocaram palavras quase inaudíveis.
O local estava próximo. Era logo ali, ela sentou num banco, ele ficou de frente para ela, de pé. Ela olhava para esquerda, ele pra cima. Não resistia mais. Suavemente passou-lhe a mão no rosto direcionando seus olhos para os dela. Aquele momento não conseguiria descrever com detalhes. Mas ele lançou-se em direção a ela, com calma, e deu-lhe um proibido beijo, proibido sim, mas não negado, consentido.
Riram muito, não poderia ser de outra forma. Não tocaram em nomes.
Não sei se conseguirei metaforizar tão bem essa cena [e tenho o dom]:
       Era uma cena de filme. Eles sabiam que só poderiam se encontrar ali e pela última vez. A cada beijo, a cada abraço perfumado, cada centímetro da pele do outro percorrido com altivez. Ela era dele naquele momento, ele queria aquilo. E como se aqueles dois corpos psicografassem aquela sensação em toque, em lampejo de desejo. A quentura do olhar, o selar daquele beijo. Era hora de ir embora. Ele tinha aquele gosto na boca, aquele perfume no corpo e aquela tristeza de ir embora para nunca mais voltar. Ele se afasta, lágrimas caiam de forma eufórica, ele não queria olhar para trás, mas não aguenta, quando vira ela está de pé sorrindo, alguém se aproxima dela, abraça, viram-se e vão.
Nele restava aquele gosto, aquelas lágrimas e aquele desejo.
Desejar.

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