sexta-feira, 22 de julho de 2011

Memorial da Saudade


Um dia quis escrever sobre algo que me deixava triste. Mas por quê? Perguntei.
Escrever sobre sentimentos sempre me deixou bem, não importando qual sentimento fosse. Escrevi uma peça certa vez, uma comédia. As pessoas a apreciam, não pela dramaturgia [que não me agrada], mas pelas situações bizarras, comuns e rotineiras que são apresentadas nela. O que as pessoas não sabem [e nem poderiam saber] é que a escrevi num dos momentos mais odiosos da minha vida. Estava bêbado de vinho e escutando tango [que por sinal foi a trilha sonora de todo o espetáculo]. Isso mostra quanto me faz bem escrever, como tenho consciência do poder que as palavras têm sobre as pessoas [pelo menos sobre as pessoas que valem à pena].
Pensei hoje em escrever sobre amor, mas é um tema já tão batido pela literatura, todos tentando metaforizar esse sentimento tão estranho e, por vezes, passageiro. O medo de ser piegas me toma conta quando escrevo algo do gênero.
Escrever sobre ódios e rancores não me atrai. Possuo alguns desses sentimentos presos em mim, algo que quero me furtar de remexer, pelo menos aqui.
Escreverei então sobre saudade. Eu amo esse sentimento [já misturando amor com saudade e lá vem o pieguismo].
Hoje eu acordei com saudade, não poderia ser diferente já que fui adormecer com esse sentimento me tomando conta. Uma saudade geral e algumas especificas. Saudades da infância e de como era simples viver naquela situação, situação que me privava de liberdade e dela, bem...  Dela não abro mão.
Acordei com saudade do nordeste, daquelas pessoas formidáveis que me deram cor e gosto, cor de barro, gosto de mar.
Deitei com saudade dos olhos negros, de mãos suadas, de sorriso largo.
Acordei com saudade de primeira carta, de um “chêro” no cangote, de um cabelo cortado.
Deitei com saudade de meu bem-querer, do primeiro amor aos onze anos, das letras rabiscadas em papeis umedecidos em lágrimas juvenis.
Acordei com saudade de intensidade, de um abraço com moletom de “piu-piu” [o melhor abraço da minha vida], de um alguém já bem distante e sem contato.
Deitei saudoso de frio na barriga, de pegar na mão da menina na escola, de andar por ela inteiramente, tremendo, mas decidido. [falar de Driele sempre me emociona].
Acordei com saudade de suco de mangaba, de feira de ciências e de palavras em sotaques.
Deitei com saudade daquele olho azul [verde em dias normais] e de como me fazia bem uma pele branca, com algumas sardas no verão [que ela odiava].
Acordei com saudade de viagem semanal.
Deitei saudoso do primeiro amor da faculdade, dos cabelos curtos, pele bronzeada e olhos também azuis [eles meio que me perseguem]. Da intensidade daquele primeiro beijo no qual o tremor dos nossos corpos nos enterneciam. [mais um contato que não tenho, mas sei que está bem, Srtª Votto Cruz].
Acordei saudoso de cores amarelas, de olhos [agora] verdes. Saudoso dessa simplicidade, da qual sempre valorizei e valorizo, embora, talvez, não tivesse expressado de forma que fosse necessária. De filmes intermináveis em fins de semanas fantásticos, de festas nas quais éramos as [quase] únicas pessoas e não precisava de mais nada, nem ninguém.

Deitei com saudade de ti.
Acordei com saudade de ti.
Vejo-me agora com saudade de ti.
Sentirei essa saudade, pois ela é minha.

Sentir saudade é se sentir livre! Saudade não aprisiona. Saudade é um memorial de coisas alocadas ao acaso, descritas em desejos íntimos, dos quais contamos a nós mesmos por meio de lágrimas embriagadas em sorrisos.
Sentir saudade é não querer reviver esse passado [alguns já tão passados] é deixar lá, na estante das emoções. Lembrar tudo que foi acrescido com ele, curvar-se, desculpar-se, admitir-se humano, passível de erros e perdões. Aquele perfume que te faz lembrar ele (a), aquela cor que o (a) caracterizava pra ti, aquela palavras e jeito único que todos têm e te marcam verdadeiramente sob um olhar também único, petrificado, saudoso.
Sentir saudade...
... é sentir o ontem, dentro de um hoje projetando-se amanhã.
Lembre de mim com carinho, pois com carinho guardo-te em meus olhos.

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