O momento
De braços cruzados ele assiste a cena. Parecia ser algo dantesco, algo que ele nunca havia visto. Eram três horas da manhã, ele havia bebido somente o necessário para aquela madrugada: Um litro de vodka, meio de conhaque e duas doses de rum [que ele acreditava que aquecia a voz].
Pensava em coisas aleatórias, sentimentos mundanos com velocidades nunca antes vistas.
- Algo me falta. Algo me sobra. Algo me critica.
Três frases bem pontuadas. Não entendia aquele sentimento demasiado confuso. Algumas pessoas possuem papeis na vida das outras, já outras não. Existem pessoas que têm alguma importância [nem que seja negativa] e de certa forma deveríamos cuidá-las, vigiá-las como pastores. Mas não! Os papeis estavam invertidos, ele não entendia o porquê. Não entendia o medo do outrem. Medos não justificados o deixavam perplexo diante do mundo. Queria compreender aquela “Faca e o queijo na mão”.
Ele tinha um sentimento a mais que precisava estrebuchar: O cinismo.
Ficava imaginando como conseguiam ter estomago para falar, criticar, mentir sem o mínimo pudor, sem ao menos ter dor de cabeça. [aquela vodka não lhe caia bem, lhe cairia melhor um banho].
Na perdição do incontestado ele mesmo se contesta. Devia ter ficado quieto, ou como diria Guimarães Rosa: “temia abreviar a vida nos rasos do mundo”. E essas pessoas existem, e como.
Queria entender mais sobre a palavra “proteção”, oito letras que queriam significar algo. Ele tinha a mania de querer proteger os seus, com unhas e dentes, mesmo que saísse ferido mortalmente [acendeu uma vela azul].
Ele já nem sabia mais que horas eram. Perdeu-se dentro de intermináveis garrafas.
A discussão
De frente ao espelho, encarava-se como poucas vezes havia feito. Seu semblante de sorriso tímido o deixava perplexo diante das cores abrigadas ao reflexo.
- Pssss!! – Dizia ele para ele mesmo, ou algo que o valha. – O melhor é calar, calar é para os sábios.
- Já me calei.
A discussão continuava através dos olhos e expressões faciais. Eles estavam numa briga horrenda no qual os dois sairiam perdendo [lembrou-se de analisar uma coisa]. Correu para o quarto, ainda em briga consigo mesmo, uma briga quase mediúnica, quando resolve abrir a gaveta, nela continha uma foto. Aquela foto. Uma polaróide empoeirada. A foto sai aos gritos, grunhidos foscos sobre “duas” pessoas. Ambos se esconderam no edredom. A foto gritava.
E o melhor era?
- Calar, isso mesmo.
- Mas você sabe tudo o que estão falando de você?
-Sim.
- E então? Não vamos fazer nada.
- Esperar. O tempo é longo. É amigo da verdade. A mentira gritada tantas vezes pode até se travestir de verdade por algum tempo, mas é por fora. Por dentro, ah... meu caro eu-mesmo, por dentro sempre mora aquela lanterna dos bons, dos desvalidos, que norteiam o real. Quando a pseudo-luz da mentira travestida apagar, aquela lanterna explicará muita coisa.
- E essa ânsia de gritar, estapear e dar tiros?
- Troquemos por um sorriso, uma coca e um pastel de camarão.
Riram de si mesmo.
O patético estava alocado no quarto do fundo do quintal, entrava de vez em quando pela janela lateral, para isso tinha que subir na casinha do cachorro, que sempre me avisava internamente que estava fazendo. Eu deixei. Se tivesse a razão e mesmo assim invadisse minha casa para gritar era sinal que a razão não tinha tanta razão assim, ou tinha?
E esse cão que não pára de latir ali fora? Parou.
- Só feche a janela ao entrar, não faça muito barulho, vou dormir.
Nascer do sol, a discussão estava terminada, a foto rasgada, a bebida acabada, ele dormindo, ela sentindo, e o cachorro latindo [só pra rimar].

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