Era um relógio antigo, do século XIX, mas estava bem cuidado, lubrificado e funcionava como um belo relógio dinamarquês. Santiago admirava o contar das horas, sobretudo por se tratar de um relógio às avessas. Ele contava as horas para trás.
Tomava um café [o quarto], sentia suas mãos tremendo. Os olhos fixados no relógio como se precisasse de um conselho do tempo [não recebia, ou fingia não entender o que ele queria dizer]. Já passava das três da tarde, sua barba por fazer indicava que há dias estava ali. Hidratado com café e lembranças, sem coragem [talvez] de lutar por algo. Ela não tinha mais forças. Olhava aquele relógio que ‘conta para trás’ na esperança que ele fizesse o tempo realmente voltar. Se isso fosse verdade ele voltaria apenas três dias ele precisava de meses, anos, vida.
A cada hora voltada Santiago sentia-se mais vivo, já deveria ser sexta-feira [ele ama as sextas-feiras]. Num súbito o relógio pára, sentiu-se aflito, será que o tempo também teria parado? Será que as coisas tinham voltado ao que eram? Será que o mundo também havia parado e as pessoas estavam todas nas ruas congeladas. Imaginou pombos congelados em pleno voo, senhoras com seus netos a passear pelas vielas da praça. Naquele momento uma súbita ansiedade o tomava conta. O mundo havia parado para ele, como num passe de mágica. Decidiu banhar-se, vestir aquele terno de linho que o deixava igualmente alinhado, fazer a barba e colocar aquela colônia que o deixava másculo, pegar sua bengala predileta, um charuto com fumo de chocolate e ir ao local do primeiro encontro. Talvez tivesse passado mais de três dias, talvez ele estivesse no dia do encontro, tudo deveria estar igual.
No banho reviveu suas histórias. Aquele trinta e um de outubro, comumente conhecido como dia das bruxas estava de volta, ele tinha certeza. Banho tomado, barba feita, cortou-se no mesmo lugar como outrora e sentiu aquilo como um sinal bom.
Vestiu o terno, que de alguma forma, estranhamente, lhe apertara nas costas.
Segurou na maçaneta, respirou fundo e abriu a porta. De olhos ainda fechados, sentiu o frescor da brisa em sua face, uma brisa gélida, era outubro Santiago tinha certeza.
Ao abrir os olhos, viu que estava errado. Haviam instalado ar-condicionado no prédio e ele estava debaixo dele, as novas portas de vidro abafavam o som da rua. Tudo se movimentava e ele sentia que mais rápido do que o normal. Discretamente uma lágrima cai de seu olho direito [o míope].
Decidiu enfrentar a realidade, correu para a rua e gritou. Aquele grito abafado e saudoso, nostálgico, ensurdecedor. Os transeuntes aí sim pararam, notaram sua presença. Uma moça veio em sua direção e perguntou se estava tudo bem, ele disse que não, ela sorriu e disse que iria ficar tudo bem. Ele queria sorrir e não conseguia. Aquela ansiedade estava presa em seus olhos, em seu caminhar.
- obrigado por perguntar – Disse.
Ela continuava a sorrir, ele no auge da ansiedade convida-a para um suco, já não suportara mais o gosto do café. Ela disse que estava com pressa:
- Aceito.
Ele não entendeu.
- Há muitos dias não saia de casa – disse ela.
Ele achou estranho, mas decidiu descobrir por que. Foram a um lugar que ele amava e sempre ia sozinho. O garçom o viu e já vinha lhe trazendo o café, quando ele pediu um suco de acerola. Ela se chamava Liz e sorria.
- Não queria mais sair de casa, o barulho do relógio me acalmava – disse ela.
Fitou-a de forma estranha e perguntou o porquê da sua saída justamente naquele dia.
- sai para comprar pilhas, meu relógio havia parado.
Naquele instante Santiago entendeu o que havia acontecido com o dele, sentiu-se envergonhado, mas preferiu não comentar.
Ela tinha uma pele morena, cor de jambo, olhos negros e um perfume de rosas.
Ele tinha a pele rubra da vergonha, olhos verdes e um perfume de loção.
Conversaram por horas. Aquela ansiedade foi sendo trocada por calmaria.
A mesma roupa, mas outro lugar, outra bebida, uma nova perspectiva. Santiago percebeu que o mundo continuava a girar numa velocidade ainda incerta, mas decidida. Que o mundo girava ao contrário, mas o relógio? Esse não! Marca horas quase extas, quase certas, quase únicas. E agora num novo sentido certo.
Ansiedade


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