domingo, 31 de julho de 2011

A Galinha e o Monstro

Au, au, au – gritou a galinha Lúcia. Sim, ela era poliglota, acreditava-se que alem de cachorrês, ela arriscava também um camelês e, por vezes, um cavalês com maestria.
Ela vivia numa aldeia de ornitorrincos amestrados. Sentia-se um pouco diferente
        - Ora, dona galinha, o mundo se torna interessante justamente pelas diferenças, então o mundo tornava-se interessante, por tua presença. Ah, e não se esquece, cada vez que fica triste uma estrela se apaga no céu.
Mas não adiantava, ela se achava diferente [co-co-ri-có] toda vez que ela recebia visitas da suas tias ornitorrinco ela ouvia a conversa: “Nossa, como Godofredo [seu irmão] cresceu e está bonito e veja Lúcia, como está, está.. simpática”. Lúcia já não se incomodava com isso [talvez].
Naquele dia ensolarado de cacarejeiro [mês galináceo] ela estava sentada no poleiro furta-cor [o poleiro diferente que os outros ornitorrincos não gostavam] quando ouve-se uma risada ensurdecedora, os ornitorrincos todos começaram a correr , a voar [sim] desesperados, atiraram-se no ornitorrinco-esconderijo [um espécie de calabouço medieval]. Lúcia ao invés de fugir, achou a cena engraçada, achou aquela risada bonita, lhe agradava aos ouvidos.
Era o horripilante monstro das quentes terras [coitado, um incompreendido], aproximou-se dela, rindo [não sabia a diferença entre rosnar e rir] e ela não fugia, ria junto com o monstro. Ele pára, assiste a cena de Lúcia rindo norvosamente, com as asas para cima, se debatendo e pedindo desculpas. Lúcia da um salto batendo as asas em frenesi, aplica-lhe uma mordida: “uma mordida risonha” dizia ela. Ele gritou:
-Vixeee! Cê ta pensando o que, dona Galinha? Maxucô, visse?
Quando ela ouviu aquela voz repleta de cantar “sotacoso” verde-água, rio ainda mais. O monstro havia gostado [apesar da dor].
Conversaram por horas, sem ninguém atrever-se a incomodar. Encontram-se na diferença e na semelhança de serem incompreendidos por tantos.
O encontrar da gargalhada que rosna e das mordidas que riem.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Memorial da PAZ


Ele olhou para câmera, com sutileza e sussurrou a seguinte palavra: Paz.
Havia acabado já há algum tempo, aquele sentimento todo, bom e ruim, era o que ele desejava: Paz. As pessoas seguem, ele seguia, ela seguia, ele seguia todos seguiam. E tinha que ser assim, era o melhor a fazer. Paz.
Uma coisa que os folhetins televisivos tentam incutir na cabeça de todos: Ou a pessoa é má ou ela é boa. Não existem vilões e mocinhos. Quem não foi mal por querer ou mesmo sem querer? Quem não foi bom com quem foi mal ou foi mal com quem foi bom. A posse    doentia gera o mal, o desprendimento total também, eles sabiam disso.
Ele segurava nas mãos uma pedra que imediatamente jogava fora, fora de cogitação empunha-la contra o outrem. [relâmpagos na rua].
O dia estava cor de mel, com cheiro de azeitonas e pele rubra. O sentimento era de olhar pra trás e não ter o que retocar [suspiro].
Todos sabiam que essa palavra simples [paz] era verdadeira, era precisa [nos dois sentidos da palavra, substantivo e verbo]. Além da pedra o alfinete fora jogado na rua, em que um raio tomava conta. Sem armas e escudos. Ela conhecia o âmago dele, sem mais.
E quem não conhecia julgava, com razão [não costumo tentar tirar a razão de quem têm] era compreensivo. Ser compreensivo requer paciência: “Eu entendo”, uma das frases mais proferidas por ele há algum tempo. E entendia mesmo [o que não lhe furtava o direito de dor, contudo, não lhe acrescia o sentimento de guerra].
Aquela câmera gravava seus olhos castanhos mel em dias luminosos e dizia todas essas palavras aqui escritas, mas sem a necessidade de mostra-las. Ela sabia. O outro provavelmente não acreditava [paciência], mais uma vez o direito de dúvida lhe era entregue para o bom uso.
Paz.
Suspiro.
Sorriso.
Nunca lhes desejou mal, há pouco tempo também não lhes desejava bem, era indiferente. E há tempos mudou, desejava um bem e felicidade mútua, sobretudo pra ela. Paz.
Ele sempre foi de se defender com palavras duras e por vezes cruéis, era um dom que ele sempre disse a ela que preferia usar para acariciar, afagar e fazer afeto. E ela sabia.
Paz.
Ao olhar para câmera é como se olhasse nos olhos dela. Parcelas de culpa? Sim, todos. Mas fica para trás.
Paz.
Reflexão.
Lealdade.
Ele fez promessas que não descumprirá. E ela sabe.
A paz reside no afago de lembranças boas, ele conseguia [agora] fazer isso e desejava que ela também.
Para ele sem Stalker, sobretudo em mim; não reside o risco, não reside a agressão [já residiu]. Agora o prudente, necessário e magnânimo seria isso: Um dia de chuva, chocolate quente e sorrisos de todos, sem perder tempo discutindo passados empoeirados e ociosos sem limites, sem desejo.
Partem para a paz.
Partem para a chuva.
Partem para o sucesso pessoal.
Que o frio gerem-nos aconchegos, suspiros e felicidade.
É o meu desejo. De paz.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Além da alma


Eles estavam lado a lado. Não se olharam, não deveriam praticar tamanho ato obsceno. Era um dia chuvoso, estavam indo para o mesmo lugar, sem combinar, sem premeditar, apenas iam. Algumas pessoas os acompanhavam, de forma esparsa, sem contato. Ele resolve acelerar o passo, não queria olhar, não queria trocar olhar, não queria contato, se pudesse, ali, ele voaria. Mas não deu, quando ele acelera o passo, olha para esquerda no mesmo momento que ela a direita, seus olhos se acariciaram, envergonhadamente.
Já a alguns passos à frente ele percebe que ela também acelera o passo e queria ultrapassá-lo (ela não ficaria para trás) e consegue, por ele não teria nenhum problema. Ela segurava um guarda-chuva, uns cadernos além de uma mochila no ombro direito. Quando no inesperado, ela tropeça, não chega a cair, conto se atrapalha um pouco deixando a mochila cair, estava envergonhada. Ele se aproxima, amolece-se (como de costume) e pega a mochila dela, que agradece sem olhar.
Não se olhavam, era proibido.
Lá pelas tantas, passos a esmo, ventos ao cabelo, delícias gélidas e eles tocam braço com braço, ele desliza até a mão dela e a segura, ele tremia, ela aceitava, entrelaçaram os dedos de uma forma cosmicamente natural. Mas não, continuavam a não se olhar, trocaram palavras quase inaudíveis.
O local estava próximo. Era logo ali, ela sentou num banco, ele ficou de frente para ela, de pé. Ela olhava para esquerda, ele pra cima. Não resistia mais. Suavemente passou-lhe a mão no rosto direcionando seus olhos para os dela. Aquele momento não conseguiria descrever com detalhes. Mas ele lançou-se em direção a ela, com calma, e deu-lhe um proibido beijo, proibido sim, mas não negado, consentido.
Riram muito, não poderia ser de outra forma. Não tocaram em nomes.
Não sei se conseguirei metaforizar tão bem essa cena [e tenho o dom]:
       Era uma cena de filme. Eles sabiam que só poderiam se encontrar ali e pela última vez. A cada beijo, a cada abraço perfumado, cada centímetro da pele do outro percorrido com altivez. Ela era dele naquele momento, ele queria aquilo. E como se aqueles dois corpos psicografassem aquela sensação em toque, em lampejo de desejo. A quentura do olhar, o selar daquele beijo. Era hora de ir embora. Ele tinha aquele gosto na boca, aquele perfume no corpo e aquela tristeza de ir embora para nunca mais voltar. Ele se afasta, lágrimas caiam de forma eufórica, ele não queria olhar para trás, mas não aguenta, quando vira ela está de pé sorrindo, alguém se aproxima dela, abraça, viram-se e vão.
Nele restava aquele gosto, aquelas lágrimas e aquele desejo.
Desejar.

A Prateleira


- Um copo, por favor. – ele pediu aquele copo com uma determinação que até mesmo o bar tender ficou assustado. O Garçom escolheu qualquer copo, o mais próximo, contudo, Paulo decide por um copo específico, um que estava numa prateleira, empoeirada, pequeno, quase fosco. Elias, o garçom, avisa que aquele copo está ali há muito tempo, que praticamente ninguém usava. Mas ele era insistente. Queria aquele copo a qualquer custo. Não sabia ao certo o que beber. Sabemos bem, caros leitores, que para se beber um bom vinho, um bom copo é preciso, um conhaque, outro; até mesmo a popular cerveja não deve ser apreciada em copos de plástico.
O garçom decidiu oferecer uma aposta a Paulo, que muito paciente aceitou. Era o seguinte: havia naquela prateleira, além daquele copo, várias bebidas de diferentes nações, cores, sabores, cheiros; com capacidades alucinógenas. Ele poderia escolher qualquer uma, a garrafa inteira, se ele bebesse e mesmo assim ainda escolhesse aquele copo o garçom tomaria uma bebida especial que refletia sentimentos alheios.
Elias, o garçom, oferece então uma bebida da Noruega, país distante e altamente místico, crer-se-ia que quem bebesse daquela ardente bebida seria capaz de ver o interior das pessoas, mas para tanto o coração de quem bebesse também deveria ser puro. Paulo recusou, imaginou não ter o coração tão puro assim.
Em seguida, Elias oferece uma bebida élfica, era uma bebida gasosa que só se materializa em liquido no momento de encostar ao copo, feito exclusivamente para ele com lágrimas de elfos da primeira geração. Quem bebesse dessa bebida não choraria mais, nem sentiria tristeza. Mas para que isso funcionasse a pessoa que a bebesse nunca na vida poderia ter fingido chorar, ou mentir emoções não suas. Paulo também desistiu dessa aromatizante garrafa élfica.
Terceira e última garrafa, Elias já estava ficando impaciente, ele não deveria tocar naquele copo, ele considerava ter oferecido as mais atraentes bebidas ao rapaz que se mantinha firme [não tinha outro jeito]  no desejo de ter em mãos aquele copo, daquela específica prateleira. Essa garrafa era especial, Elias assovia e naquele instante diversos pássaros adentram o bar carregando uma garrafa de madeira cintilante, meio azulada. Aquela bebida fora feita com o extrato de plantas da primeira árvore existente no mundo, quem bebesse daquele líquido ganharia o direito à vida e juventude eternas, um gole, uma eternidade.
Mas como todas as outras bebidas, essa também tinha a sua condição para habitar o corpo de alguém. Para que o efeito não fosse contrário a pessoa nunca poderia ter maltratado a vida de alguém, deveria ter sido pura, pois só seria mantido aqui, dessa forma, com eternidade quem tivesse a vontade absoluta de fazer coisas boas. Mais uma vez ele teve que recusar a garrafa.
Elias então cumpriu com o prometido, bebeu sua bebida para ver os sentimentos alheios e entregou o copo a Paulo, que sorridente não pede nada para beber nele. Coloca o pequeno copo no bolso e sai. E quando partiu, Elias observava seus sentimentos, era uma mistura de carência, falta de opção e desejo de posse. E o copo? Não havia nada demais nele, Elias utilizava para dar leite para seu gato.   

terça-feira, 26 de julho de 2011

Conflitando verdades

O momento

De braços cruzados ele assiste a cena. Parecia ser algo dantesco, algo que ele nunca havia visto. Eram três horas da manhã, ele havia bebido somente o necessário para aquela madrugada: Um litro de vodka, meio de conhaque e duas doses de rum [que ele acreditava que aquecia a voz].
Pensava em coisas aleatórias, sentimentos mundanos com velocidades nunca antes vistas.
            - Algo me falta. Algo me sobra. Algo me critica.

Três frases bem pontuadas. Não entendia aquele sentimento demasiado confuso. Algumas pessoas possuem papeis na vida das outras, já outras não. Existem pessoas que têm alguma importância [nem que seja negativa] e de certa forma deveríamos cuidá-las, vigiá-las como pastores. Mas não! Os papeis estavam invertidos, ele não entendia o porquê. Não entendia o medo do outrem. Medos não justificados o deixavam perplexo diante do mundo. Queria compreender aquela “Faca e o queijo na mão”.
Ele tinha um sentimento a mais que precisava estrebuchar: O cinismo.
Ficava imaginando como conseguiam ter estomago para falar, criticar, mentir sem o mínimo pudor, sem ao menos ter dor de cabeça. [aquela vodka não lhe caia bem, lhe cairia melhor um banho].
Na perdição do incontestado ele mesmo se contesta. Devia ter ficado quieto, ou como diria Guimarães Rosa: “temia abreviar a vida nos rasos do mundo”. E essas pessoas existem, e como.
Queria entender mais sobre a palavra “proteção”, oito letras que queriam significar algo. Ele tinha a mania de querer proteger os seus, com unhas e dentes, mesmo que saísse ferido mortalmente [acendeu uma vela azul].
Ele já nem sabia mais que horas eram. Perdeu-se dentro de intermináveis garrafas.

A discussão

De frente ao espelho, encarava-se como poucas vezes havia feito. Seu semblante de sorriso tímido o deixava perplexo diante das cores abrigadas ao reflexo.

- Pssss!! – Dizia ele para ele mesmo, ou algo que o valha. – O melhor é calar, calar é para os sábios.

- Já me calei.

A discussão continuava através dos olhos e expressões faciais. Eles estavam numa briga horrenda no qual os dois sairiam perdendo [lembrou-se de analisar uma coisa]. Correu para o quarto, ainda em briga consigo mesmo, uma briga quase mediúnica, quando resolve abrir a gaveta, nela continha uma foto. Aquela foto. Uma polaróide empoeirada. A foto sai aos gritos, grunhidos foscos sobre “duas” pessoas. Ambos se esconderam no edredom. A foto gritava.

E o melhor era?
            - Calar, isso mesmo.
            - Mas você sabe tudo o que estão falando de você?
            -Sim.
            - E então? Não vamos fazer nada.
            - Esperar. O tempo é longo. É amigo da verdade. A mentira gritada tantas vezes pode até se travestir de verdade por algum tempo, mas é por fora. Por dentro, ah... meu caro eu-mesmo, por dentro sempre mora aquela lanterna dos bons, dos desvalidos, que norteiam o real. Quando a pseudo-luz da mentira travestida apagar, aquela lanterna explicará muita coisa.
            - E essa ânsia de gritar, estapear e dar tiros?
            - Troquemos por um sorriso, uma coca e um pastel de camarão.
Riram de si mesmo.

O patético estava alocado no quarto do fundo do quintal, entrava de vez em quando pela janela lateral, para isso tinha que subir na casinha do cachorro, que sempre me avisava internamente que estava fazendo. Eu deixei. Se tivesse a razão e mesmo assim invadisse minha casa para gritar era sinal que a razão não tinha tanta razão assim, ou tinha?
E esse cão que não pára de latir ali fora? Parou.
- Só feche a janela ao entrar, não faça muito barulho, vou dormir.
Nascer do sol, a discussão estava terminada, a foto rasgada, a bebida acabada, ele dormindo, ela sentindo, e o cachorro latindo [só pra rimar].

Flor do sertão


Aquele ar cálido, terra verde, árvores cor de barro. Um barulho de sinos em cordel. Como era quente aquele dia, tão quente que no clima frio em que me encontro fica difícil até de imaginar.
Algumas coisas são tão inexplicáveis que fica aqui a tentativa de explicá-las. Era inverno, um inverno deveras quente [para mim]. Era um cabelo comprido [que depois se fez curto]. Salas casuais, encontros tantos assim quanto possíveis. Ela vestia uma saia jeans e um sorriso largo. Era uma menina de dentro, preferia assim. Meus olhos miraram-na com curiosidade, era só o que me era permitido.
Um toque de voz, um lampejo de alma, dois toques e alguns medos. Uma viagem, um sertão, uma história, algo de aluvião. “você faz perguntas demais”. De fato fazia.
Em contraste, um seco desenrolar. Pedaços de papeis escritos com vontade. Leituras escondidas, para esconder a expressão. Um punhado de lembranças espaçadas, porém fincadas de uma forma quase eterna. Um entrelaçar de dedos, dois copos d’água.
Naquele dia, à noite, choveu no sertão. Eles estavam lá, caminharam pela chuva quente, pararam num abrigo de sol, escondendo a chuva. Difícil. Difícil falar de sertão chuvoso e não lembrar.
Essas lembranças não adormecem como tantas outras. De tempos em tempos elas ressurgem magicamente, logo em alguém como eu, que absorve o passado com a força que o presente me dá.
Ela caminhava, por vezes, entre corredores. Passos firmes, talvez não tão certos. Flores não sabem caminhar, flores vão com o vento. E naquela terra árida essa flor se fortalece, se modifica, sabendo exatamente onde estão suas raízes.
Flor do sertão.