Au, au, au – gritou a galinha Lúcia. Sim, ela era poliglota, acreditava-se que alem de cachorrês, ela arriscava também um camelês e, por vezes, um cavalês com maestria.
Ela vivia numa aldeia de ornitorrincos amestrados. Sentia-se um pouco diferente
- Ora, dona galinha, o mundo se torna interessante justamente pelas diferenças, então o mundo tornava-se interessante, por tua presença. Ah, e não se esquece, cada vez que fica triste uma estrela se apaga no céu.
Mas não adiantava, ela se achava diferente [co-co-ri-có] toda vez que ela recebia visitas da suas tias ornitorrinco ela ouvia a conversa: “Nossa, como Godofredo [seu irmão] cresceu e está bonito e veja Lúcia, como está, está.. simpática”. Lúcia já não se incomodava com isso [talvez].
Naquele dia ensolarado de cacarejeiro [mês galináceo] ela estava sentada no poleiro furta-cor [o poleiro diferente que os outros ornitorrincos não gostavam] quando ouve-se uma risada ensurdecedora, os ornitorrincos todos começaram a correr , a voar [sim] desesperados, atiraram-se no ornitorrinco-esconderijo [um espécie de calabouço medieval]. Lúcia ao invés de fugir, achou a cena engraçada, achou aquela risada bonita, lhe agradava aos ouvidos.
Era o horripilante monstro das quentes terras [coitado, um incompreendido], aproximou-se dela, rindo [não sabia a diferença entre rosnar e rir] e ela não fugia, ria junto com o monstro. Ele pára, assiste a cena de Lúcia rindo norvosamente, com as asas para cima, se debatendo e pedindo desculpas. Lúcia da um salto batendo as asas em frenesi, aplica-lhe uma mordida: “uma mordida risonha” dizia ela. Ele gritou:
-Vixeee! Cê ta pensando o que, dona Galinha? Maxucô, visse?
Quando ela ouviu aquela voz repleta de cantar “sotacoso” verde-água, rio ainda mais. O monstro havia gostado [apesar da dor].
Conversaram por horas, sem ninguém atrever-se a incomodar. Encontram-se na diferença e na semelhança de serem incompreendidos por tantos.
O encontrar da gargalhada que rosna e das mordidas que riem.





