quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Um sonho

E numa padaria qualquer...

 - Boa tarde, por favor, o senhor poderia me ver um sonho?
- Ah, me desculpa, vendi o último sonho para aquela senhora que o senhor acabou de cruzar saindo pela porta.
- e não há mais nenhum?
- infelizmente estamos com falta de sonhos, eles andam muito caros para ser feitos e hoje em dia não têm muita saída.
- Nossa... Como assim?
- É mais barato comprar o usual, eu tenho ainda alguma coisa de ontem? Te interessa? Posso te dar um bom desconto.
- Mas eu quero um sonho? Não quero nada de ontem. Sonho tem gosto de amanhã, cheiro de novo. Quero um sonho.
- Quem sabe então o senhor não tenta comprar daquela senhora, tente alcançá-la.
- se é o que me resta.

E saiu atrás daquela senhora.

- Senhora, tudo bem? Eu preciso muito de um sonho, a senhora pode me vender o seu?
- Boa tarde, eu estou bem sim, obrigada por perguntar. Mas, em relação ao meu sonho não posso vendê-lo, sonho na verdade nem poderia ser vendido.
- Mas é muito importante para mim. Estou cansado de comer as mesmas coisas, já não me satisfaz mais, preciso desse sonho.
- Já disse, não posso vendê-lo.
- Por favor, o que senhora quer? Eu posso dar o que desejar.
- o que eu desejar?
- Sim.
- tudo bem, aqui está, pode levar o sonho contigo.

Ele sorriu.

- E o que a senhora quer em troca?
- Já me deu... um sorriso, uma troca muito justa não acha? Hoje somos tão frios uns com os outros, nos importamos cada vez menos com o outro, com a vontade dos outros, pensamos tanto em nós mesmos, falamos tanto de nós e acabamos esquecendo que do outro lado sempre tem alguém que sofre, que precisa de alguma coisa, nem que seja de um sonho. Já vivo só, sem companheiro, Deus o levou, sinto falta do seu sorriso aberto, ele tinha um sorriso sincero, sorria com a alma, um sonho... um sorriso.

Ela nem esperou a resposta, ele também não conseguiria responder. Ele agora  tinha o sonho nas mãos e ela... um sorriso na alma.




sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Uma saga: Ato I


- Acorda, vem por aqui? [barulhos de explosão].
- onde estou?
- não percebeu ainda? Te esconde ali, debaixo daquele engradado, vou despistá-los por aqui. Já venho.
- obrigado.

E lá foi ele, lutando.

- vou ter que perguntar de novo, onde estou?
- uma guerra, a pior delas.
- como assim? Num instante parecia estar em casa, descansando e de repente acordo em meio a essa confusão. Me ajuda? O que eu tenho que fazer?
- seguir em frente, lutar. Qual teu objetivo ?
- vencer!
- quem?
- não sei, às vezes acho que a mim mesmo. Mas tudo bem, aceito o desafio. Onde estão as minhas armas?
- Aqui, toma.
- uma faca? Apenas isso? Eu ouço barulho de armas pesadas, o “inimigo” deve estar muito bem preparado.
- é o que tenho, numa guerra como esta, um punhal às vezes vence a melhor arma, pelo seu silêncio, por seu certeiro corte vertical. Boa sorte.
- mas quem é você?
- um amigo, vai. Tu parece ter medo de lutar. [estrondos].
- não tenho medo, só um pouco de cansaço, de perder a mesma batalha sempre.
- se achar que essa guerra vale a pena, sorri, empunha tua faca e entra.
- Mas se o “inimigo” estiver mais preparado, por um passado cheio de erros e esperança de consertá-los, com promessas de que consegue?
- Sabe a real razão de te dar essa faca?
-não!
- olhe pra ela, de perfil, me diz o que vê.
- o meu reflexo.
- sim, é só isso que tu tens, o reflexo de si mesmo e a vontade de mostrar o quão maravilhoso pode ser estar acabado no fim da “luta” e ao ver de novo essa arma, rever teu reflexo, suado, vencido, mas pleno por ter oferecido o teu sangue, o teu coração. Agora vai, já perdeste tempo demais.
- ei, obrigado. Não te conheço, mas parece que o contrário não é verdadeiro.
- te conheço desde antes de nascer. Tudo que está acontecendo só serve como provação, na tua quietude e um pouco de dor e tristeza, reside aquele porto seguro, que alguns sabem que podem voltar mesmo tu já tendo dito que não. Sabem que a tua calmaria é simples e teu toque sincero.
- sim, obrigado. Eu vou.

...

Que lugar é esse? Parece que eu já tive aqui antes. Conheço esse cheiro, esse desejo de sair correndo, esse medo de enfrentar o passado dos outros. Não sei se devo. Acho que vou ficar quieto. Se bem que ao dizer essas palavras a única coisa que não fico é quieto. Parece que essas palavras chegam longe, longe demais. Cada um possui em si os medos mais delirantes e cruéis. Eu tenho medo desse vazio [bombas]. Minha nossa! Eu tava quieto, no meu canto, vivendo minha vida, meus desejos e meus sonhos. Como pode alguém surgir e desmoronar o meu porto seguro?

Ao passar por uma encosta, ele encontra uma pessoa presa por uns cipós, amordaçada. Ali ele entendera a real necessidade daquela arma, não era para agredir ninguém, era para libertar alguns de seus medos. Ele corta a mordaça antes de soltá-la por completo.

- Muito obrigado, tinha perdido a esperança que tu viesses me salvar.
- quem és? E o que faz aqui?
- Não me reconhece?
-Não.
- Talvez não tenha acordado ainda. Vou te explicar. Sabe todas as vezes que não conseguisse dizer algo, por medo ou orgulho?
- perdi as contas dessas vezes.
- toda vez que deixastes de dizer algo importante, bom ou ruim, para alguém, me amordaçasse um pouco mais, até quase me sufocar com minhas palavras não ditas.
- onde eu estou afinal?
- não percebeu ainda? (risos).
- [desconfiado] Não.
- olha para os lados, estás dentro de ti e essa guerra é tua.
- mas que guerra é essa?
- uma guerra de ti, contra algumas coisas que tens medo. Mas agora, libertasse minha mordaça, não tens mais medo de dizer o que pensa, sente, não precisa mais falar com risos ou lágrimas, as palavras estão de volta à tua boca. O que queres dizer?
- [pasmo] Não sei.
- o que ta sentindo agora?
- Saudade.
- o que mais?
- felicidade por senti-la.
- por quê?
- porque só se sente saudades daquilo que foi bom, daquilo que se queria que ficasse melhor, daquilo que meus lábios, minhas mãos e minha alma já tocavam.
- É o primeiro passo. Essa jornada vai ser longa, eu fui apenas o primeiro passo. Amanhã enfrentarás algo mais doloroso para ti, mas pelo menos terás como falar. Como prêmio por me libertar, te dou uma noite de sono tranquilo, sonharás como aquele toque. Quando acordar, segue o caminho nas pedras molhadas, e tenha paciência com o que for encontrar. Dorme.

... dormiu.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Meu pequeno dragão

De alguma forma parafraseando o mestre que diz haver dragões no apartamento. O meu está aqui, está naquele canto, entre o sofá e o mural de fotos. Ele andava rindo, descontroladamente por entre as esteiras fáceis de amar. Não lançava labaredas ferozes, lançava algo como marshmallow’s coloridos, cheios de vigor e atenção. Quando chegava a madrugada, ele voava por entre os prédios, de forma invisível, pegava a estrada e ia até um lugar distante, com belas pontes e necessários verdes. Quando chegava, imediatamente diminuía de tamanho, para que pudesse passar por debaixo da porta, muito silencioso para não acordar a rata. Passava por mais uma porta, subia numa cama e suspirava [em silêncio] e dizia: “vim te cuidar, não vais passar essa noite sozinha, eu te aqueço um pouquinho”.
E lá ficava velando aquele sono calmo, sono com meias divertidas e mil cobertores. Ficava triste em não poder mirar aqueles olhos que agora descansavam, mas ficava feliz por respirar aquele mesmo ar, sentir aquele calor...[ o dragão nunca me contou, mas creio que de vez em quando ela devia roncar].
Agora eu to olhando o dragão aqui do meu lado, nem sombra do que era, tentando se fazer de forte, tentando não transparecer tristeza, só para mostrar que está tudo bem. Os dragões têm seus momentos de hipocrisia. Algumas lágrimas caem em seus enegrecidos olhos de dragão, mas tudo bem... acredita-se que lágrimas de dragão podem curar as feridas do coração.

sábado, 24 de setembro de 2011

Para sempre


Para sempre, meu mausoléu de lembranças [ elas são singelas];
Para sempre, meu inequívoco jeito de ser [mutável];
Para sempre, minha vida de emoções [montanha-russa agradável];

Para ontem, minha fadiga de existir [um bocejo confortante];
Para ontem, meu sorriso perante o mar [que não [muito] me agrada];
Para ontem, teu sorriso de alcaçuz.

Para já, meu lampejo de ciência [minha fé, que não remove montanhas];
Para já, aquele copo cheio de amarula [soluçar embriagado].
Para já, minha vida mais cheia de vazio cronológico [o tempo me é caro].

Gosto do verde mais verde, do cinza mais verde e de pássaros felinos.
Gosto do cheiro da intensidade, do brasão da alegria.
Gosto de piqueniques na praça, de cães latindo, de senhores lúcidos.

Quero mel na manteiga, jornais de amanhã e textos tranquilos.
Quero o cantar do vento, o sonhar da criança e a falência da promiscuidade pueril.
Quero querer.

Meu horizonte é vertical, premiado e constante.

Meus beijos têm gosto de ‘sim’, cheiro de alegria e intensidade de tempo parado.

Meu abraço de têm tom de azul-bebê, toque de chuva e vontade de pôr-do-sol.

Minhas manhãs têm jeito de mau-humor, de voz de sono e de preguiça em existir.
Minhas tardes são de olhos fechados, vidros empoeirados e sirenes de polícia emocional.
Minhas noites são de meia-estação, sorrisos no rosto e cristalinas na euforia de uma música interna.

domingo, 11 de setembro de 2011

Memorial do meu teatro


Não vire de costas. Decorou o texto? E o figurino? Já viste se tudo  está no lugar? Ok, agora respira fundo, o trabalho foi feito, apresenta.  

Que arte! Nela podemos ser quem quisermos. Montar num boi imaginário, suar a camisa, suar o figurino graças aquele foco à pino. Todos te olham e tu não olhas ninguém. Muitos meses de trabalho, muitas unhas roídas, muitos medos expostos.

Lembro dos meus primeiros ensaios, meus medos de começar, meus medos de continuar, minha sensação de ser péssimo de estar aquém do que ele queria, de ele esperar muito mais de mim, eu me esforçava.

Sempre fui um aficionado pela magia, por encantar, por seduzir. O teatro me cai no colo, como e fosse destino, com a pessoa certa, um grande mestre: Sr Valter Sobreiro Júnior.

E comecei dizendo:



“Já um ror de vezes tenho dito e provo, que fui ordença no meu coronel Bento Gonçalves”. Contos da guerra grande.

E dizia tremendo, no auge dos meus 18 anos. Foi trágico e feliz. Queria abraçar o mundo com as pernas, com os olhos, com os textos, com o corpo e alma.

Seguir, numa segunda vez, dizendo:

“Nosso pai era um homem cumpridor, ordeiro, positivo. Não figurava mais tristes que os outros...só quieto”. Terceira Margem do Rio.

Essa, muito nervosismo me deu, segunda vez e estar sozinho em cena, prender a atenção e me rasgar para ser razoável, para agradar o mestre, me agradar e aos meus. No teatro, formar bagagem não é simples.

Depois a minha primeira grande pane, o chamado “branco” em “Se chovesse, vocês estragavam todos” sozinho em cena, eu comigo mesmo, mais de uma hora de espetáculo e aos dez minutos todo o texto me foge. Foram os trinta segundos mais longos da minha vida... Mas, num rompante, ele retorna e tudo corre bem.





Não consigo expressar minha tamanha alegria em estar hoje completando 10 anos de teatro, 10 anos completamente apaixonado por essa arte fabulosa, por encontrar nela o carinho, o medo, a angústia de outros que não sou.

“Sou o que não foi, o que vai ficar calado, mas temo abreviar a vida nos rasos do mundo”

Agradeço a pessoas muito queridas como

Valter Sobreiro Júnior;
Charlie Raynè,
Roberta Rangel,
Flavio Dornelles
Barthira Franco.

Que me acrescentaram muito em arte, amizade e afeição. Muito obrigado por tudo =)

Peças (ator). Ordem cronológica (tentativa).

Contos da Guerra Grande
Terceira Margem do rio.
Se chovesse vocês estragavam todos.
Antes do Baile Verde.
A Alface.
O Gueto.
Em nome de Francisco.
O Castelo.
Nadin Nadinha, contra o rei de fuleiró.
Jogo do osso.
Mate do João Cardoso.
A guerra na terra da paz.
Viúva, porém honesta
Perdoa-me por me traíres.
Antônio meu santo.
Fuenteovejuna

Diretor

Jingobel
A Família perfeita.
Nas linhas da alma.
Os gatos latem, os cães miam.
Inocêncio.
Lágrimas de Helena.

(Pseudo) Dramaturgo

A Família perfeita.
Nas linhas da alma.
Os gatos latem, os cães miam.
Inocêncio.
Lágrimas de Helena.
Venâncio e seus demônios.
O diário de um suicida.

Prêmios

O castelo e A Alface -  Melhor ator festival do SESC.
Melhor espetáculo  Melhor ator coadjuvante, melhor ator e melhor atriz =  Jingobel.
Direção – Jingobel.

E que venha os próximos 10 anos = )

Muita merda pra nós!













segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Turbante Furta-cor


De turbante em pensamentos, ele saiu pela gélida noite de um julho qualquer. A esmo, perguntava-se sobre a imensidão daquilo que via e se era tão imenso. Dentro dele, tocava uma gaita escocesa, acordes geniais, produzidos pelas batidas de seu coração. Perguntava-se de onde vinha, nenhuma resposta plausível. Não precisava. Bastava.
Aquele turbante não combinava com a paisagem gélida. Era cor de creme, ou lilás... As cores mudavam de acordo com seus pensamentos, naquele momento estava amarelo queimado, uma cor-não-cor... Ele furtava as cores.
Apreciava anis, mas não como qualquer marroquino ou etíope... Ele pensava em anis. Com seu toque inequívoco, perambulava em estradas pouco habitadas. Queria falar de amor, mas não tinha com quem. Talvez não precisasse. A gaita continuava a galanteá-lo. Ele parou, ela seguiu. Acendeu seu charuto [não cubano, do leste europeu] e pensava no seu passado e como havia chegado ali. Ele pensava e sentia orgulho.
De repente, sentiu-se tomado em vermelho, memórias nem sempre são boas. Lembrou-se de tantas vezes que sentiu vontade de cometer insanidades com “desfechos medievalistas”. Arrependeu-se.
Puxou de seu bolso um retrato, já desgastado pelo tempo. Doze anos e seis meses desde aquele sorriso ali impresso. Aqueceu-se com ele. Regozijou-se. Ele sabia que há qualquer momento poderia reencontrá-la, era uma questão de escolha. Ele escolhia: não. Aquele amor estava cristalizado em cores marrons [talvez ali residisse o maior desejo de enfrentar], seu turbante ficou laranja, se sentia não compreendido, pequeno, inviável, insólito... Uma insólita presença dentro de si [a gaita tocava uma valsa, em seis tempos].
Não sabia mais se seguia a viagem por aquele caminho, não mais seguro. Lembrou-se que a segurança estava no passear de cada passo. A vontade de rever outros caminhos, estava presente. Ele estava cansado, precisava dormir...
Preferiu não fazê-lo, preferiu...
...retirar-se para dentro de si e dançar aquela linda valsa vermelha...
...por dentro.

domingo, 28 de agosto de 2011

Tica Tac ... meu relógio faz

(Laerte Pedroso – 03h15min)

A vida realmente é um bom tema para ser discutido. Claro! É algo fascinante, tantos já tentaram - muitos com proeza - defini-la. Mas, qual realmente o sentido da vida? O que querem que pensemos? Sim, pensemos. Pois, agir é relativamente fácil. Vamos tentar refletir um pouco: todos os dias seguimos uma determinada ordem, seja ela biológica ou meramente cronológica (ambos muitas vezes anexadas). Acordamos, comemos, trabalhamos, comemos, entre esses afazeres despejamos nossas impurezas biológicas, transamos (se tivermos sorte. Ou em alguns casos azar), comemos e dormimos. Um ritmo frenético. Tanto que um dos nossos maiores prazeres são as tão esperadas férias (desde que elas ocorram no começo do ano e sem dívidas) e porque isso? A resposta de repente seja simples: diminuímos nossa dependência do relógio, podemos extravasar acordar a hora que quisermos, comemos a hora que bem entendermos, transamos a qualquer horário e lugar (se tiver sorte! Ou não!). Tanto é verdade que hoje (14 de janeiro de 2009: Férias) eu estou aqui, acabei de comer, vi três filmes essa madrugada e às 03h20min da manhã estou aqui divagando a respeito disso. Ok, ta certo. Estou aqui divagando, discutindo acerca dos relógios, mas na verdade é insônia mesmo, não consigo dormir ok? Tenho que levantar as 09h para ver um apartamento e não consigo pregar o olho. Porque que a dona do apartamento não disse: “Meu filho, pode vir a hora que quiser, não quero atrapalhar a sua rotina anti-relógio nas férias”, mas não: “09h se quiser”. Sim senhora!
Mas eu me considero um vencedor. Meu tempo interno é muito superior a tudo isso. Claro, procuro nas discutir com essas pessoas normais: que horas são? 03h26min. Pra vocês! Para mim não são nem 20h. To com todo pique (quase!). Mas do que estávamos falando mesmo? Ah! Sobre a vida. A brevidade da vida. Será mesmo que ela é breve? “Depois dos 15 anos, voa” tudo bem é verdade. Certa vez ouvi de meu pai que se ele tivesse a maturidade adquirida aos 64 anos de idade dele com a minha idade na época (15 anos) ele dominaria o mundo. Confesso, só entre nós: ainda bem que isso não aconteceu. Senão não teria graça, hoje com essa dita sabedoria no auge de minha sapiência aos 25 anos 14 dias 03h e 30min eu dominando o mundo. Se bem que as coisas seriam bem diferentes. A primeira coisa que faria se dominasse o mundo seria: NADA. Aliás uma de minhas atividades prediletas: O ato de não fazer NADA... Como esse texto, que não serve para nada, nem para me dar sono. Espero que em você digníssimo (acho) leitor pelo menos para isso ele tenha servido. Leia a noite, se tiver compromisso pela manhã e ainda estiver sem sono. Ótimo remédio.
Hum... Mas voltemos a falar de vida. Agora sua vez. Sim. Vamos, não seja tímido. Como está sua vida? Mas o que é isso? Vamos conversar. 03h34min. Diga alguma coisa. Está aí me olhando com essa cara de “sei lá o que” e não diz nada. Não adianta comentar no blog depois. Vamos. Sua vez. Hable comigo. Somos amigos, eu acho. Pelo menos estou dentro de sua casa agora. Preciso que se abra comigo, senão isso vira uma masturbação intelectual, eu “falo” você me “escuta” e não chegamos a lugar nenhum. Mas não precisa me dizer nada. Eu sei. Quer ver? Sua vida: está passando por algum problema. Ou melhor, alguns problemas, de gravidade variada. Algum financeiro. Parece-me um tanto quanto abatido (a), problemas no amor? Sei como é. Problemas no amor são sempre os mais difíceis de resolver, para alguns. Mas tudo se resolve. Que tal uma conversa? Vamos. 03h39min. Tic tac. Ainda bem que já me desprendi desse lance de relógio. Ta olha só... Quer saber? Você vai se lascar mesmo e sabe por quê? Por que no amor é assim, uns se lascam enquanto os outros se dão bem. É! E você, seu (sua) babaca ( o, a, os, as, sei lá!) foi o escolhido (a) agora! É! Justamente as 03h42min! Foi o escolhido (a) babaca dessa pessoa e não adianta espernear. Ta sozinho (a), ou pior, ta acompanhado (a) com um belo par de chifres. Não se preocupe eu às 03h44min estou aqui para lhe ajudar: não fique assim, o chifre não é nada mais do que fruto de nosso egoísmo, de nossa sociedade cristã - ocidental que nos impõe a monogamia, um gesto egoísta que prega o não compartilhamento do corpo com o outrem que não seja aquele que você acertou, quase como num contrato (se bem que namoro é um contrato verbal e o casamento um contrato visceral, com cartório e tudo.) então pense (às 03h47min) que você não é egoísta e permite dividir e pronto, seus problemas acabaram. Viu como nossa conversa sobre a “vida e o tempo” está se tornando produtiva? Pois é! E você duvidando ainda de onde isso aqui vai dar. (risos) me subestimando não é? Sem problemas. Olha só, estou cansado de ter que escrever textos que tenha lógica (mais um termo relacionado a tempo, espaço e sociedade, que saco!), por exemplo, quantas vezes somente nesses 5 minutos em que você está lendo esse belo texto, afirmou que isso era perda de tempo. Justamente às 03h51min. E eu aqui, até resolvendo seus problemas amorosos, quanta falta de consideração comigo.
Bom, meu celular despertou agora 03h59min, destinei 44 minutos da minha madrugada para escrever esse texto. E já se passaram. Portanto amigo (a), faça como eu, não seja escravo dessas convenções capitalistas. Não seja escravo do tempo.
E tenho dito!


Laerte Pedroso. 04h02min

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Seis goles d'água


Sim, apenas seis são suficientes para resolvermos qualquer problema. Veja bem: sabe aqueles dias escaldantes? Repletos de afazeres? Experimente seis goles de água! Pronto, de repente lá se vão os problemas, todos. Seis goles de água, uma solução. Não acreditou ainda? Pois bem, faça o teste. Dia chato, teu patrão te enchendo e você louco para falar aquilo tudo que sempre quis e que, com certeza, lhe custaria o emprego. Beba seis goles, nada a mais nada a menos. Pronto, esfriou! Ah! Mas claro que meu distinto leitor é uma pessoa inteligente E ESTÁ se perguntando: mas e no inverno? Isso não adiantaria!. Bom, desconsiderando ao fato de que sou nordestino e que minha terra jamais passa frio, poderia concordar. Mas, esse bravo escritor não pode deixar de tentar vencer a luta aqui imposta por ele (mim) mesmo. A regra continua se aplicando. Ah! Surpreso? Pois é. A regra continua se aplicando (só preciso ver como, já que fui pego de surpresa por mim mesmo, portanto, enrolo enquanto tento arrumar uma resposta plausível).
Pronto! Descobri. Você chega a casa, em pleno frio de agosto. Depara-se com sua mulher no sofá (só não digo na cama porque é o lugar em que os casais amantes menos fazem sexo hoje em dia) com outro homem (prefiro aqui utilizar o gênero masculino embora as estatísticas afirmem que as relações entre mulheres estão crescendo e nesse caso isso acabaria em bacanal). Você saca a sua arma (sim, você tem uma arma) e atira! Boom! Mata o amante. Boom! Mata a esposa. Boom! Mata o gato dela, já que não quer ter nenhuma lembrança dessa vagabunda e o gato lhe dava alergia. Você acaba de tirar três vidas. Se tivesse me escutado, ou melhor, lido, essa história teria um final diferente! Você entraria em casa, encontraria sua mulher com outro no sofá, com gato ao lado. Em vez de puxar a arma, você correria até a cozinha fazendo o máximo de barulho possível, encheria um copo de água e toma seis goles, tempo suficiente para o amante colocar as calças e sair correndo junto com a sua mulher, mãe dos seus filhos pela porta levando o gato. Você se desespera, pois, o gato era a única lembrança que teria dela, mesmo que ele lhe proporcionasse alergia. Sua vida estaria acabada, corno, com filhos para criar, no inverno, porém pouparia algumas vidas. Viu? Com seis goles de água, o mundo seria outro.

sábado, 13 de agosto de 2011

Sutileza


Ela me sorri com a alma. Que saudade do sorriso dela, do seu jeito peculiar. Ela me conquista com seu caminhar, revoga meus medos mais íntimos, mas escusos. Quando sua imagem me vem à mente, tudo parece confortar, deixa claro, sem borrões. Como é bom poder fechar os olhos com simplicidade e se jogar de costas, pois ela ampara com seu toque suave.
Lá vem ela [quem dera]. Impossível não sorrir ao imaginar a cena perfeita. “Princesa dos olhos d’água”. Quando a vejo, meu coração dispara, meu sangue aquece minhas dedicações. Quando a beijo, sinto cheiro de entrega, de dia feliz, de riso fácil. Quando ela vai, sinto um ‘até logo’.
Sua voz é suave, ao menor distrair... Ela se faz perceber em consoantes e vogais aveludadas regadas a carícias com uma sutileza-não-sutil. Mordo, abraço, suspiro, desejo, cumplicidade, ternura, paixão... e tantos mais à essa pequena, que não se esconde de mim, não consegue. Levo-a na leveza correta de levar. Trago-a nos meus braços apertados de saudade doída. Uma saudade de rir olhando nos olhos, num sofá cor de vinho, saboreando cada momento, perplexo com a beleza do verbo “Estar”. Estar, estar, estar, estar... Como é bom estar... Assim.

domingo, 7 de agosto de 2011

As [in]sensações

A canção tocava na vitrola naquela estante antiga. Trepidava seu inconsciente, trepidava sua alma de andarilho. Ele sentia um desejo longínquo de estatizar aquilo. Era tudo tão diferente.
Ao pegar o livro de capa cinza, queria ler algumas palavras que o confortasse, que o deixasse sentindo algo que sempre gostou de sentir, quem sabe amor, quem sabe desejo, desejo de estar próximo do que lhe era caro.
Fazia-se um carinho com olhos fechados em volúpia de lembranças pueris. Desejava vestir um chapéu azul que não tinha. Queria sentir aquele aroma, o livro já não mais entregava a ele aquelas sensações. A música parou, ele parou. Abriu um champagne para brindar o “imbrindável”. Colecionava emoções que não eram suas, sustentava realidades alheias. Queria sair de casa, saiu.
Pela rua, corria entre lágrimas pedindo que visse, precisava ver, mais uma vez. Mas ele não sabia mais o que deseja no fundo do seu âmago. Parou de sentir, parecia vegetar.
Havia vendido barato todas as suas emoções, não precisava mais delas, não queria precisar de mais nenhuma emoção. Assim era melhor. Havia cansado de sentir tão intensamente coisas que só ele sentia. Certo ou errado? Branco ou preto? Verde ou azul? Parecia tudo igual.
Foi até o chafariz, estava vazio e sujo, não esboçou reação. Onde se compram emoções novas? Qual armazém? Não conseguia nem sentir-se frustrado. Mas o que era aquilo? De repente sente um beijo no rosto, olha para o lado e não há ninguém. Deu mais dois passos... outro beijo. Percebia que alguém oculto lhe fizera um cafuné. Então:
            -Psiu! Acorda.
Ele fecha os olhos, abrindo no mundo real. Estava em sua cama, ela ao lado lhe abrindo um sorriso lindo, dizendo bom dia, com voz de sono que o levava ao paraíso. Retribui. Conta-lhe que havia tido um sonho ruim. Ela diz:
            - foi apenas um sonho, me abraça... a realidade é bem mais quentinha.
            - sonhei que não sentia nada, vegetava sem emoções.
            - que bom, não deixa que sonhos levem as emoções que podes sentir aqui, comigo.
Ele sorriu. Ela riu de si mesma. Ele abraçou-a, fazendo-lhe cócegas e passaram a manhã de domingo assim, vivendo essa realidade simples e fora do comum.

domingo, 31 de julho de 2011

A Galinha e o Monstro

Au, au, au – gritou a galinha Lúcia. Sim, ela era poliglota, acreditava-se que alem de cachorrês, ela arriscava também um camelês e, por vezes, um cavalês com maestria.
Ela vivia numa aldeia de ornitorrincos amestrados. Sentia-se um pouco diferente
        - Ora, dona galinha, o mundo se torna interessante justamente pelas diferenças, então o mundo tornava-se interessante, por tua presença. Ah, e não se esquece, cada vez que fica triste uma estrela se apaga no céu.
Mas não adiantava, ela se achava diferente [co-co-ri-có] toda vez que ela recebia visitas da suas tias ornitorrinco ela ouvia a conversa: “Nossa, como Godofredo [seu irmão] cresceu e está bonito e veja Lúcia, como está, está.. simpática”. Lúcia já não se incomodava com isso [talvez].
Naquele dia ensolarado de cacarejeiro [mês galináceo] ela estava sentada no poleiro furta-cor [o poleiro diferente que os outros ornitorrincos não gostavam] quando ouve-se uma risada ensurdecedora, os ornitorrincos todos começaram a correr , a voar [sim] desesperados, atiraram-se no ornitorrinco-esconderijo [um espécie de calabouço medieval]. Lúcia ao invés de fugir, achou a cena engraçada, achou aquela risada bonita, lhe agradava aos ouvidos.
Era o horripilante monstro das quentes terras [coitado, um incompreendido], aproximou-se dela, rindo [não sabia a diferença entre rosnar e rir] e ela não fugia, ria junto com o monstro. Ele pára, assiste a cena de Lúcia rindo norvosamente, com as asas para cima, se debatendo e pedindo desculpas. Lúcia da um salto batendo as asas em frenesi, aplica-lhe uma mordida: “uma mordida risonha” dizia ela. Ele gritou:
-Vixeee! Cê ta pensando o que, dona Galinha? Maxucô, visse?
Quando ela ouviu aquela voz repleta de cantar “sotacoso” verde-água, rio ainda mais. O monstro havia gostado [apesar da dor].
Conversaram por horas, sem ninguém atrever-se a incomodar. Encontram-se na diferença e na semelhança de serem incompreendidos por tantos.
O encontrar da gargalhada que rosna e das mordidas que riem.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Memorial da PAZ


Ele olhou para câmera, com sutileza e sussurrou a seguinte palavra: Paz.
Havia acabado já há algum tempo, aquele sentimento todo, bom e ruim, era o que ele desejava: Paz. As pessoas seguem, ele seguia, ela seguia, ele seguia todos seguiam. E tinha que ser assim, era o melhor a fazer. Paz.
Uma coisa que os folhetins televisivos tentam incutir na cabeça de todos: Ou a pessoa é má ou ela é boa. Não existem vilões e mocinhos. Quem não foi mal por querer ou mesmo sem querer? Quem não foi bom com quem foi mal ou foi mal com quem foi bom. A posse    doentia gera o mal, o desprendimento total também, eles sabiam disso.
Ele segurava nas mãos uma pedra que imediatamente jogava fora, fora de cogitação empunha-la contra o outrem. [relâmpagos na rua].
O dia estava cor de mel, com cheiro de azeitonas e pele rubra. O sentimento era de olhar pra trás e não ter o que retocar [suspiro].
Todos sabiam que essa palavra simples [paz] era verdadeira, era precisa [nos dois sentidos da palavra, substantivo e verbo]. Além da pedra o alfinete fora jogado na rua, em que um raio tomava conta. Sem armas e escudos. Ela conhecia o âmago dele, sem mais.
E quem não conhecia julgava, com razão [não costumo tentar tirar a razão de quem têm] era compreensivo. Ser compreensivo requer paciência: “Eu entendo”, uma das frases mais proferidas por ele há algum tempo. E entendia mesmo [o que não lhe furtava o direito de dor, contudo, não lhe acrescia o sentimento de guerra].
Aquela câmera gravava seus olhos castanhos mel em dias luminosos e dizia todas essas palavras aqui escritas, mas sem a necessidade de mostra-las. Ela sabia. O outro provavelmente não acreditava [paciência], mais uma vez o direito de dúvida lhe era entregue para o bom uso.
Paz.
Suspiro.
Sorriso.
Nunca lhes desejou mal, há pouco tempo também não lhes desejava bem, era indiferente. E há tempos mudou, desejava um bem e felicidade mútua, sobretudo pra ela. Paz.
Ele sempre foi de se defender com palavras duras e por vezes cruéis, era um dom que ele sempre disse a ela que preferia usar para acariciar, afagar e fazer afeto. E ela sabia.
Paz.
Ao olhar para câmera é como se olhasse nos olhos dela. Parcelas de culpa? Sim, todos. Mas fica para trás.
Paz.
Reflexão.
Lealdade.
Ele fez promessas que não descumprirá. E ela sabe.
A paz reside no afago de lembranças boas, ele conseguia [agora] fazer isso e desejava que ela também.
Para ele sem Stalker, sobretudo em mim; não reside o risco, não reside a agressão [já residiu]. Agora o prudente, necessário e magnânimo seria isso: Um dia de chuva, chocolate quente e sorrisos de todos, sem perder tempo discutindo passados empoeirados e ociosos sem limites, sem desejo.
Partem para a paz.
Partem para a chuva.
Partem para o sucesso pessoal.
Que o frio gerem-nos aconchegos, suspiros e felicidade.
É o meu desejo. De paz.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Além da alma


Eles estavam lado a lado. Não se olharam, não deveriam praticar tamanho ato obsceno. Era um dia chuvoso, estavam indo para o mesmo lugar, sem combinar, sem premeditar, apenas iam. Algumas pessoas os acompanhavam, de forma esparsa, sem contato. Ele resolve acelerar o passo, não queria olhar, não queria trocar olhar, não queria contato, se pudesse, ali, ele voaria. Mas não deu, quando ele acelera o passo, olha para esquerda no mesmo momento que ela a direita, seus olhos se acariciaram, envergonhadamente.
Já a alguns passos à frente ele percebe que ela também acelera o passo e queria ultrapassá-lo (ela não ficaria para trás) e consegue, por ele não teria nenhum problema. Ela segurava um guarda-chuva, uns cadernos além de uma mochila no ombro direito. Quando no inesperado, ela tropeça, não chega a cair, conto se atrapalha um pouco deixando a mochila cair, estava envergonhada. Ele se aproxima, amolece-se (como de costume) e pega a mochila dela, que agradece sem olhar.
Não se olhavam, era proibido.
Lá pelas tantas, passos a esmo, ventos ao cabelo, delícias gélidas e eles tocam braço com braço, ele desliza até a mão dela e a segura, ele tremia, ela aceitava, entrelaçaram os dedos de uma forma cosmicamente natural. Mas não, continuavam a não se olhar, trocaram palavras quase inaudíveis.
O local estava próximo. Era logo ali, ela sentou num banco, ele ficou de frente para ela, de pé. Ela olhava para esquerda, ele pra cima. Não resistia mais. Suavemente passou-lhe a mão no rosto direcionando seus olhos para os dela. Aquele momento não conseguiria descrever com detalhes. Mas ele lançou-se em direção a ela, com calma, e deu-lhe um proibido beijo, proibido sim, mas não negado, consentido.
Riram muito, não poderia ser de outra forma. Não tocaram em nomes.
Não sei se conseguirei metaforizar tão bem essa cena [e tenho o dom]:
       Era uma cena de filme. Eles sabiam que só poderiam se encontrar ali e pela última vez. A cada beijo, a cada abraço perfumado, cada centímetro da pele do outro percorrido com altivez. Ela era dele naquele momento, ele queria aquilo. E como se aqueles dois corpos psicografassem aquela sensação em toque, em lampejo de desejo. A quentura do olhar, o selar daquele beijo. Era hora de ir embora. Ele tinha aquele gosto na boca, aquele perfume no corpo e aquela tristeza de ir embora para nunca mais voltar. Ele se afasta, lágrimas caiam de forma eufórica, ele não queria olhar para trás, mas não aguenta, quando vira ela está de pé sorrindo, alguém se aproxima dela, abraça, viram-se e vão.
Nele restava aquele gosto, aquelas lágrimas e aquele desejo.
Desejar.