- Acorda, vem por aqui? [barulhos de explosão].
- onde estou?
- não percebeu ainda? Te esconde ali, debaixo daquele engradado, vou despistá-los por aqui. Já venho.
- obrigado.
E lá foi ele, lutando.
- vou ter que perguntar de novo, onde estou?
- uma guerra, a pior delas.
- como assim? Num instante parecia estar em casa, descansando e de repente acordo em meio a essa confusão. Me ajuda? O que eu tenho que fazer?
- seguir em frente, lutar. Qual teu objetivo ?
- vencer!
- quem?
- não sei, às vezes acho que a mim mesmo. Mas tudo bem, aceito o desafio. Onde estão as minhas armas?
- Aqui, toma.
- uma faca? Apenas isso? Eu ouço barulho de armas pesadas, o “inimigo” deve estar muito bem preparado.
- é o que tenho, numa guerra como esta, um punhal às vezes vence a melhor arma, pelo seu silêncio, por seu certeiro corte vertical. Boa sorte.
- mas quem é você?
- um amigo, vai. Tu parece ter medo de lutar. [estrondos].
- não tenho medo, só um pouco de cansaço, de perder a mesma batalha sempre.
- se achar que essa guerra vale a pena, sorri, empunha tua faca e entra.
- Mas se o “inimigo” estiver mais preparado, por um passado cheio de erros e esperança de consertá-los, com promessas de que consegue?
- Sabe a real razão de te dar essa faca?
-não!
- olhe pra ela, de perfil, me diz o que vê.
- o meu reflexo.
- sim, é só isso que tu tens, o reflexo de si mesmo e a vontade de mostrar o quão maravilhoso pode ser estar acabado no fim da “luta” e ao ver de novo essa arma, rever teu reflexo, suado, vencido, mas pleno por ter oferecido o teu sangue, o teu coração. Agora vai, já perdeste tempo demais.
- ei, obrigado. Não te conheço, mas parece que o contrário não é verdadeiro.
- te conheço desde antes de nascer. Tudo que está acontecendo só serve como provação, na tua quietude e um pouco de dor e tristeza, reside aquele porto seguro, que alguns sabem que podem voltar mesmo tu já tendo dito que não. Sabem que a tua calmaria é simples e teu toque sincero.
- sim, obrigado. Eu vou.
...
Que lugar é esse? Parece que eu já tive aqui antes. Conheço esse cheiro, esse desejo de sair correndo, esse medo de enfrentar o passado dos outros. Não sei se devo. Acho que vou ficar quieto. Se bem que ao dizer essas palavras a única coisa que não fico é quieto. Parece que essas palavras chegam longe, longe demais. Cada um possui em si os medos mais delirantes e cruéis. Eu tenho medo desse vazio [bombas]. Minha nossa! Eu tava quieto, no meu canto, vivendo minha vida, meus desejos e meus sonhos. Como pode alguém surgir e desmoronar o meu porto seguro?
Ao passar por uma encosta, ele encontra uma pessoa presa por uns cipós, amordaçada. Ali ele entendera a real necessidade daquela arma, não era para agredir ninguém, era para libertar alguns de seus medos. Ele corta a mordaça antes de soltá-la por completo.
- Muito obrigado, tinha perdido a esperança que tu viesses me salvar.
- quem és? E o que faz aqui?
- Não me reconhece?
-Não.
- Talvez não tenha acordado ainda. Vou te explicar. Sabe todas as vezes que não conseguisse dizer algo, por medo ou orgulho?
- perdi as contas dessas vezes.
- toda vez que deixastes de dizer algo importante, bom ou ruim, para alguém, me amordaçasse um pouco mais, até quase me sufocar com minhas palavras não ditas.
- onde eu estou afinal?
- não percebeu ainda? (risos).
- [desconfiado] Não.
- olha para os lados, estás dentro de ti e essa guerra é tua.
- mas que guerra é essa?
- uma guerra de ti, contra algumas coisas que tens medo. Mas agora, libertasse minha mordaça, não tens mais medo de dizer o que pensa, sente, não precisa mais falar com risos ou lágrimas, as palavras estão de volta à tua boca. O que queres dizer?
- [pasmo] Não sei.
- o que ta sentindo agora?
- Saudade.
- o que mais?
- felicidade por senti-la.
- por quê?
- porque só se sente saudades daquilo que foi bom, daquilo que se queria que ficasse melhor, daquilo que meus lábios, minhas mãos e minha alma já tocavam.
- É o primeiro passo. Essa jornada vai ser longa, eu fui apenas o primeiro passo. Amanhã enfrentarás algo mais doloroso para ti, mas pelo menos terás como falar. Como prêmio por me libertar, te dou uma noite de sono tranquilo, sonharás como aquele toque. Quando acordar, segue o caminho nas pedras molhadas, e tenha paciência com o que for encontrar. Dorme.
... dormiu.
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