domingo, 7 de agosto de 2011

As [in]sensações

A canção tocava na vitrola naquela estante antiga. Trepidava seu inconsciente, trepidava sua alma de andarilho. Ele sentia um desejo longínquo de estatizar aquilo. Era tudo tão diferente.
Ao pegar o livro de capa cinza, queria ler algumas palavras que o confortasse, que o deixasse sentindo algo que sempre gostou de sentir, quem sabe amor, quem sabe desejo, desejo de estar próximo do que lhe era caro.
Fazia-se um carinho com olhos fechados em volúpia de lembranças pueris. Desejava vestir um chapéu azul que não tinha. Queria sentir aquele aroma, o livro já não mais entregava a ele aquelas sensações. A música parou, ele parou. Abriu um champagne para brindar o “imbrindável”. Colecionava emoções que não eram suas, sustentava realidades alheias. Queria sair de casa, saiu.
Pela rua, corria entre lágrimas pedindo que visse, precisava ver, mais uma vez. Mas ele não sabia mais o que deseja no fundo do seu âmago. Parou de sentir, parecia vegetar.
Havia vendido barato todas as suas emoções, não precisava mais delas, não queria precisar de mais nenhuma emoção. Assim era melhor. Havia cansado de sentir tão intensamente coisas que só ele sentia. Certo ou errado? Branco ou preto? Verde ou azul? Parecia tudo igual.
Foi até o chafariz, estava vazio e sujo, não esboçou reação. Onde se compram emoções novas? Qual armazém? Não conseguia nem sentir-se frustrado. Mas o que era aquilo? De repente sente um beijo no rosto, olha para o lado e não há ninguém. Deu mais dois passos... outro beijo. Percebia que alguém oculto lhe fizera um cafuné. Então:
            -Psiu! Acorda.
Ele fecha os olhos, abrindo no mundo real. Estava em sua cama, ela ao lado lhe abrindo um sorriso lindo, dizendo bom dia, com voz de sono que o levava ao paraíso. Retribui. Conta-lhe que havia tido um sonho ruim. Ela diz:
            - foi apenas um sonho, me abraça... a realidade é bem mais quentinha.
            - sonhei que não sentia nada, vegetava sem emoções.
            - que bom, não deixa que sonhos levem as emoções que podes sentir aqui, comigo.
Ele sorriu. Ela riu de si mesma. Ele abraçou-a, fazendo-lhe cócegas e passaram a manhã de domingo assim, vivendo essa realidade simples e fora do comum.

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