sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Uma saga: Ato I


- Acorda, vem por aqui? [barulhos de explosão].
- onde estou?
- não percebeu ainda? Te esconde ali, debaixo daquele engradado, vou despistá-los por aqui. Já venho.
- obrigado.

E lá foi ele, lutando.

- vou ter que perguntar de novo, onde estou?
- uma guerra, a pior delas.
- como assim? Num instante parecia estar em casa, descansando e de repente acordo em meio a essa confusão. Me ajuda? O que eu tenho que fazer?
- seguir em frente, lutar. Qual teu objetivo ?
- vencer!
- quem?
- não sei, às vezes acho que a mim mesmo. Mas tudo bem, aceito o desafio. Onde estão as minhas armas?
- Aqui, toma.
- uma faca? Apenas isso? Eu ouço barulho de armas pesadas, o “inimigo” deve estar muito bem preparado.
- é o que tenho, numa guerra como esta, um punhal às vezes vence a melhor arma, pelo seu silêncio, por seu certeiro corte vertical. Boa sorte.
- mas quem é você?
- um amigo, vai. Tu parece ter medo de lutar. [estrondos].
- não tenho medo, só um pouco de cansaço, de perder a mesma batalha sempre.
- se achar que essa guerra vale a pena, sorri, empunha tua faca e entra.
- Mas se o “inimigo” estiver mais preparado, por um passado cheio de erros e esperança de consertá-los, com promessas de que consegue?
- Sabe a real razão de te dar essa faca?
-não!
- olhe pra ela, de perfil, me diz o que vê.
- o meu reflexo.
- sim, é só isso que tu tens, o reflexo de si mesmo e a vontade de mostrar o quão maravilhoso pode ser estar acabado no fim da “luta” e ao ver de novo essa arma, rever teu reflexo, suado, vencido, mas pleno por ter oferecido o teu sangue, o teu coração. Agora vai, já perdeste tempo demais.
- ei, obrigado. Não te conheço, mas parece que o contrário não é verdadeiro.
- te conheço desde antes de nascer. Tudo que está acontecendo só serve como provação, na tua quietude e um pouco de dor e tristeza, reside aquele porto seguro, que alguns sabem que podem voltar mesmo tu já tendo dito que não. Sabem que a tua calmaria é simples e teu toque sincero.
- sim, obrigado. Eu vou.

...

Que lugar é esse? Parece que eu já tive aqui antes. Conheço esse cheiro, esse desejo de sair correndo, esse medo de enfrentar o passado dos outros. Não sei se devo. Acho que vou ficar quieto. Se bem que ao dizer essas palavras a única coisa que não fico é quieto. Parece que essas palavras chegam longe, longe demais. Cada um possui em si os medos mais delirantes e cruéis. Eu tenho medo desse vazio [bombas]. Minha nossa! Eu tava quieto, no meu canto, vivendo minha vida, meus desejos e meus sonhos. Como pode alguém surgir e desmoronar o meu porto seguro?

Ao passar por uma encosta, ele encontra uma pessoa presa por uns cipós, amordaçada. Ali ele entendera a real necessidade daquela arma, não era para agredir ninguém, era para libertar alguns de seus medos. Ele corta a mordaça antes de soltá-la por completo.

- Muito obrigado, tinha perdido a esperança que tu viesses me salvar.
- quem és? E o que faz aqui?
- Não me reconhece?
-Não.
- Talvez não tenha acordado ainda. Vou te explicar. Sabe todas as vezes que não conseguisse dizer algo, por medo ou orgulho?
- perdi as contas dessas vezes.
- toda vez que deixastes de dizer algo importante, bom ou ruim, para alguém, me amordaçasse um pouco mais, até quase me sufocar com minhas palavras não ditas.
- onde eu estou afinal?
- não percebeu ainda? (risos).
- [desconfiado] Não.
- olha para os lados, estás dentro de ti e essa guerra é tua.
- mas que guerra é essa?
- uma guerra de ti, contra algumas coisas que tens medo. Mas agora, libertasse minha mordaça, não tens mais medo de dizer o que pensa, sente, não precisa mais falar com risos ou lágrimas, as palavras estão de volta à tua boca. O que queres dizer?
- [pasmo] Não sei.
- o que ta sentindo agora?
- Saudade.
- o que mais?
- felicidade por senti-la.
- por quê?
- porque só se sente saudades daquilo que foi bom, daquilo que se queria que ficasse melhor, daquilo que meus lábios, minhas mãos e minha alma já tocavam.
- É o primeiro passo. Essa jornada vai ser longa, eu fui apenas o primeiro passo. Amanhã enfrentarás algo mais doloroso para ti, mas pelo menos terás como falar. Como prêmio por me libertar, te dou uma noite de sono tranquilo, sonharás como aquele toque. Quando acordar, segue o caminho nas pedras molhadas, e tenha paciência com o que for encontrar. Dorme.

... dormiu.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Meu pequeno dragão

De alguma forma parafraseando o mestre que diz haver dragões no apartamento. O meu está aqui, está naquele canto, entre o sofá e o mural de fotos. Ele andava rindo, descontroladamente por entre as esteiras fáceis de amar. Não lançava labaredas ferozes, lançava algo como marshmallow’s coloridos, cheios de vigor e atenção. Quando chegava a madrugada, ele voava por entre os prédios, de forma invisível, pegava a estrada e ia até um lugar distante, com belas pontes e necessários verdes. Quando chegava, imediatamente diminuía de tamanho, para que pudesse passar por debaixo da porta, muito silencioso para não acordar a rata. Passava por mais uma porta, subia numa cama e suspirava [em silêncio] e dizia: “vim te cuidar, não vais passar essa noite sozinha, eu te aqueço um pouquinho”.
E lá ficava velando aquele sono calmo, sono com meias divertidas e mil cobertores. Ficava triste em não poder mirar aqueles olhos que agora descansavam, mas ficava feliz por respirar aquele mesmo ar, sentir aquele calor...[ o dragão nunca me contou, mas creio que de vez em quando ela devia roncar].
Agora eu to olhando o dragão aqui do meu lado, nem sombra do que era, tentando se fazer de forte, tentando não transparecer tristeza, só para mostrar que está tudo bem. Os dragões têm seus momentos de hipocrisia. Algumas lágrimas caem em seus enegrecidos olhos de dragão, mas tudo bem... acredita-se que lágrimas de dragão podem curar as feridas do coração.

sábado, 24 de setembro de 2011

Para sempre


Para sempre, meu mausoléu de lembranças [ elas são singelas];
Para sempre, meu inequívoco jeito de ser [mutável];
Para sempre, minha vida de emoções [montanha-russa agradável];

Para ontem, minha fadiga de existir [um bocejo confortante];
Para ontem, meu sorriso perante o mar [que não [muito] me agrada];
Para ontem, teu sorriso de alcaçuz.

Para já, meu lampejo de ciência [minha fé, que não remove montanhas];
Para já, aquele copo cheio de amarula [soluçar embriagado].
Para já, minha vida mais cheia de vazio cronológico [o tempo me é caro].

Gosto do verde mais verde, do cinza mais verde e de pássaros felinos.
Gosto do cheiro da intensidade, do brasão da alegria.
Gosto de piqueniques na praça, de cães latindo, de senhores lúcidos.

Quero mel na manteiga, jornais de amanhã e textos tranquilos.
Quero o cantar do vento, o sonhar da criança e a falência da promiscuidade pueril.
Quero querer.

Meu horizonte é vertical, premiado e constante.

Meus beijos têm gosto de ‘sim’, cheiro de alegria e intensidade de tempo parado.

Meu abraço de têm tom de azul-bebê, toque de chuva e vontade de pôr-do-sol.

Minhas manhãs têm jeito de mau-humor, de voz de sono e de preguiça em existir.
Minhas tardes são de olhos fechados, vidros empoeirados e sirenes de polícia emocional.
Minhas noites são de meia-estação, sorrisos no rosto e cristalinas na euforia de uma música interna.

domingo, 11 de setembro de 2011

Memorial do meu teatro


Não vire de costas. Decorou o texto? E o figurino? Já viste se tudo  está no lugar? Ok, agora respira fundo, o trabalho foi feito, apresenta.  

Que arte! Nela podemos ser quem quisermos. Montar num boi imaginário, suar a camisa, suar o figurino graças aquele foco à pino. Todos te olham e tu não olhas ninguém. Muitos meses de trabalho, muitas unhas roídas, muitos medos expostos.

Lembro dos meus primeiros ensaios, meus medos de começar, meus medos de continuar, minha sensação de ser péssimo de estar aquém do que ele queria, de ele esperar muito mais de mim, eu me esforçava.

Sempre fui um aficionado pela magia, por encantar, por seduzir. O teatro me cai no colo, como e fosse destino, com a pessoa certa, um grande mestre: Sr Valter Sobreiro Júnior.

E comecei dizendo:



“Já um ror de vezes tenho dito e provo, que fui ordença no meu coronel Bento Gonçalves”. Contos da guerra grande.

E dizia tremendo, no auge dos meus 18 anos. Foi trágico e feliz. Queria abraçar o mundo com as pernas, com os olhos, com os textos, com o corpo e alma.

Seguir, numa segunda vez, dizendo:

“Nosso pai era um homem cumpridor, ordeiro, positivo. Não figurava mais tristes que os outros...só quieto”. Terceira Margem do Rio.

Essa, muito nervosismo me deu, segunda vez e estar sozinho em cena, prender a atenção e me rasgar para ser razoável, para agradar o mestre, me agradar e aos meus. No teatro, formar bagagem não é simples.

Depois a minha primeira grande pane, o chamado “branco” em “Se chovesse, vocês estragavam todos” sozinho em cena, eu comigo mesmo, mais de uma hora de espetáculo e aos dez minutos todo o texto me foge. Foram os trinta segundos mais longos da minha vida... Mas, num rompante, ele retorna e tudo corre bem.





Não consigo expressar minha tamanha alegria em estar hoje completando 10 anos de teatro, 10 anos completamente apaixonado por essa arte fabulosa, por encontrar nela o carinho, o medo, a angústia de outros que não sou.

“Sou o que não foi, o que vai ficar calado, mas temo abreviar a vida nos rasos do mundo”

Agradeço a pessoas muito queridas como

Valter Sobreiro Júnior;
Charlie Raynè,
Roberta Rangel,
Flavio Dornelles
Barthira Franco.

Que me acrescentaram muito em arte, amizade e afeição. Muito obrigado por tudo =)

Peças (ator). Ordem cronológica (tentativa).

Contos da Guerra Grande
Terceira Margem do rio.
Se chovesse vocês estragavam todos.
Antes do Baile Verde.
A Alface.
O Gueto.
Em nome de Francisco.
O Castelo.
Nadin Nadinha, contra o rei de fuleiró.
Jogo do osso.
Mate do João Cardoso.
A guerra na terra da paz.
Viúva, porém honesta
Perdoa-me por me traíres.
Antônio meu santo.
Fuenteovejuna

Diretor

Jingobel
A Família perfeita.
Nas linhas da alma.
Os gatos latem, os cães miam.
Inocêncio.
Lágrimas de Helena.

(Pseudo) Dramaturgo

A Família perfeita.
Nas linhas da alma.
Os gatos latem, os cães miam.
Inocêncio.
Lágrimas de Helena.
Venâncio e seus demônios.
O diário de um suicida.

Prêmios

O castelo e A Alface -  Melhor ator festival do SESC.
Melhor espetáculo  Melhor ator coadjuvante, melhor ator e melhor atriz =  Jingobel.
Direção – Jingobel.

E que venha os próximos 10 anos = )

Muita merda pra nós!













segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Turbante Furta-cor


De turbante em pensamentos, ele saiu pela gélida noite de um julho qualquer. A esmo, perguntava-se sobre a imensidão daquilo que via e se era tão imenso. Dentro dele, tocava uma gaita escocesa, acordes geniais, produzidos pelas batidas de seu coração. Perguntava-se de onde vinha, nenhuma resposta plausível. Não precisava. Bastava.
Aquele turbante não combinava com a paisagem gélida. Era cor de creme, ou lilás... As cores mudavam de acordo com seus pensamentos, naquele momento estava amarelo queimado, uma cor-não-cor... Ele furtava as cores.
Apreciava anis, mas não como qualquer marroquino ou etíope... Ele pensava em anis. Com seu toque inequívoco, perambulava em estradas pouco habitadas. Queria falar de amor, mas não tinha com quem. Talvez não precisasse. A gaita continuava a galanteá-lo. Ele parou, ela seguiu. Acendeu seu charuto [não cubano, do leste europeu] e pensava no seu passado e como havia chegado ali. Ele pensava e sentia orgulho.
De repente, sentiu-se tomado em vermelho, memórias nem sempre são boas. Lembrou-se de tantas vezes que sentiu vontade de cometer insanidades com “desfechos medievalistas”. Arrependeu-se.
Puxou de seu bolso um retrato, já desgastado pelo tempo. Doze anos e seis meses desde aquele sorriso ali impresso. Aqueceu-se com ele. Regozijou-se. Ele sabia que há qualquer momento poderia reencontrá-la, era uma questão de escolha. Ele escolhia: não. Aquele amor estava cristalizado em cores marrons [talvez ali residisse o maior desejo de enfrentar], seu turbante ficou laranja, se sentia não compreendido, pequeno, inviável, insólito... Uma insólita presença dentro de si [a gaita tocava uma valsa, em seis tempos].
Não sabia mais se seguia a viagem por aquele caminho, não mais seguro. Lembrou-se que a segurança estava no passear de cada passo. A vontade de rever outros caminhos, estava presente. Ele estava cansado, precisava dormir...
Preferiu não fazê-lo, preferiu...
...retirar-se para dentro de si e dançar aquela linda valsa vermelha...
...por dentro.