domingo, 22 de maio de 2011

A bailarina


Vejam ela...
            Ela segue nítida no seu dançar. Ela dança na rua, uma rua de ladrilhos cor de anis. Ela parece flutuar em suas sapatilhas fosforescentes, repletas de furor. E eu a vejo, escrevo sobre ela como se cantasse perfeições. Não, ela não quer ser perfeita, ela quer dançar um ballet fermentado com idéias. Calma, ela dará um ‘grand jete’ acompanhem. De um lado a outro da rua. Olhemos.
Viram que perfeição? Não. Ela errou, quis errar, errou com um sorriso nos lábios. O importante não é sua dança, mas sim todos nós.
Vejam aquele senhor, segurando um lenço de cetim esverdeado, suas lágrimas jorram, deve ser sua filha, seu amor, sua perfeição, pra ele seu salto foi sublime.
Ela tirou alguém pra dançar na rua, a música parou, ela ditará o ritmo com suas passadas aleatórias.
Viram seu figurino? Não? Apenas eu vejo... capacidades além de mim. Ela veste um vestido de tule, magenta, uma meia calça cor de púrpura, mas suave, seus ombros esguios carregam pequenos guizos, sua sapatilha... Bem... É estranha, ela fala. Fala coisas simples, alguns tormentos, suas sapatilhas amam saltar sem rumo... experimentando isso. Esses saltos novos que levam a lugares desconhecidos e cheios de oportunidades. Cuidado bailarina, dance por eles, mas não caia nos passos em falso.
Vejam, ela tirou um moço para dançar mesmo, ele aceitou, mas antes a observa através de seus óculos mascarados de medos. Ela dá um giro, um beijo no ar e sorri para ele. Ele fala outra língua, uma língua só dele... Ela congela... Percebemos uma pequena lágrima escorrendo em seu olho azul... Ela fica parada, mas sem desmanchar o sorriso recém conquistado.
- vamos bailarina (exclamo).
Ela me olha, acena positivamente com a cabeça e segue a dançar repetindo passos. O moço fita-a com um desdém interessado, acende um cigarro e começa a estalar os dedos propondo um ritmo novo ou, pelo menos, diferente. Parece um blues, mas diferente, um blues-não-blues. Ela não quer dançar assim, a rua é dela, mas mesmo assim no seu íntimo percebe que era esse o ritmo que procura e que é difícil admitir que alguém pudesse lhe propor algo tão diferente e livre de estética fechada.
Ela ensaia uns passos, todos olham sem nada entender, mas não precisamos, a rua é dela.
E começam a dança, já no primeiro movimento ele a pega pela cintura e joga para o ar, muito alto, muito alto, muito alto. Enquanto ela sobe, ele nos olha com um olhar de quem sabe o que está fazendo. Ela surpreende, não cai, sim... a rua é dela. Ela flutua por entre seus pares de certezas e alguns coqueiros sem contexto, pessoas muito únicas. Ela vive assim. Quando finalmente toca ao chão, fica nas costas do moço. Ele não gosta, ele quer que ela surpreenda dentro da previsibilidade dele, para que ele possa cobrar mais surpresas e mais, e mantê-la sob o olhar fixo de seus medos lancinantes. Medos que ele não admite ter. Mas a rua é dela, ele sabe disso.
Ouçam, a música voltou, outra música. Mas ela não dança mais, suas sapatilhas falantes estão cansadas por hoje, querem pensar... querem reformar a rua... e sim.. a rua é dela. É dela a rua.

Um comentário: