A noite chegara, no próximo vagão tudo era feito de cristal, inclusive o próprio vagão. Ela vestia uma roupa simples, como seu olhar, como tudo que há de bom possa solicita algo que seja simples. Ele ouviu sua voz, era uma voz doce, não era apenas uma voz, era um encanto transmitido por palavras inequívocas. Ela dizia expressões curtas e talvez envergonhadas. Ele, bom... Ele queria abraçá-la suavemente. E ela? Não sei. Tudo foi meio rápido, entre o cair das nuvens e aquele momento, mas nada parecia suficientemente cedo, já parecia estar ali por ter que estar. Seu cabelo combinava com sua voz, que combinava com seu sapato, que combinava com os cristais do vagão. Tudo ali parecia combinar e ele estava apenas compondo o ambiente, talvez uma peça que faltava nessa história repleta de acasos gratuitos.
Ele não tem medo de ir até ela... E ela? Não sei. E esse perfume? Também não sei. Uma música toca, e é perfeita. Ele segue por entre o vagão, ela segura um livro, também de cristal. O que será que contem nele? Palavras escritas por si mesma. Palavras de quem vive dentro de si, e ama isso, e como ele admira assim. Alguém que vive por dentro, que aprecia uma solidão escolhida, opcional. Que de vez em quando busca o mundo exterior apenas para apreciar o que de belo há nele, tudo estava contido no livro, ele não sabia, apenas imaginava. Um livro de cristal, escrito com uma caneta mágica, feita de luz. Nada mais fazia sentido exterior, ou melhor, não precisava fazer; dentro de si os pensamentos flutuavam, dentro dos dois, tudo era um emaranhado de coisas novas e positivas.
Ele não olhava para trás, fixamente olhava os olhos acastanhados dela. E ela? Bem, sorria, avermelhadamente falando.
Ela fecha o livro depois de anotar algumas coisas, guarda-o. Ficara parada, esperando que algo acontecesse, ele vai até ela, segura sua mão, que suava de nervoso, ela sorri, mais lindamente. Sua pele se mostra macia, um tremor dos dois lados, e não era um tremor de frio, estavam quentes por dentro, “mas isso deve ser normal”. Onde estão as preocupações? De qual lado? Já talvez não saibam mais. Talvez. A cada vagão percorrido eles pensam mais sobre isso tudo e pensam como se deve pensar, por dentro, não de uma forma fútil e egocêntrica.
Ele a abraça, calmamente, como deve ser. Ela retribui. É um abraço longo, alguns cristais iluminam-se de verde, como não deixaria de ser. Eles se olham face a face, ele faz um pequeno carinho em seu rosto envergonhado...







