terça-feira, 31 de maio de 2011

Um trem, uma estação: o vagão dos cristais


 A noite chegara, no próximo vagão tudo era feito de cristal, inclusive o próprio vagão. Ela vestia uma roupa simples, como seu olhar, como tudo que há de bom possa solicita algo que seja simples. Ele ouviu sua voz, era uma voz doce, não era apenas uma voz, era um encanto transmitido por palavras inequívocas. Ela dizia expressões curtas e talvez envergonhadas. Ele, bom... Ele queria abraçá-la suavemente. E ela? Não sei. Tudo foi meio rápido, entre o cair das nuvens e aquele momento, mas nada parecia suficientemente cedo, já parecia estar ali por ter que estar. Seu cabelo combinava com sua voz, que combinava com seu sapato, que combinava com os cristais do vagão. Tudo ali parecia combinar e ele estava apenas compondo o ambiente, talvez uma peça que faltava nessa história repleta de acasos gratuitos.
Ele não tem medo de ir até ela... E ela? Não sei. E esse perfume? Também não sei. Uma música toca, e é perfeita. Ele segue por entre o vagão, ela segura um livro, também de cristal. O que será que contem nele? Palavras escritas por si mesma. Palavras de quem vive dentro de si, e ama isso, e como ele admira assim. Alguém que vive por dentro, que aprecia uma solidão escolhida, opcional. Que de vez em quando busca o mundo exterior apenas para apreciar o que de belo há nele, tudo estava contido no livro, ele não sabia, apenas imaginava. Um livro de cristal, escrito com uma caneta mágica, feita de luz. Nada mais fazia sentido exterior, ou melhor, não precisava fazer; dentro de si os pensamentos flutuavam, dentro dos dois, tudo era um emaranhado de coisas novas e positivas.
Ele não olhava para trás, fixamente olhava os olhos acastanhados dela. E ela? Bem, sorria, avermelhadamente falando.
Ela fecha o livro depois de anotar algumas coisas, guarda-o. Ficara parada, esperando que algo acontecesse, ele vai até ela, segura sua mão, que suava de nervoso, ela sorri, mais lindamente. Sua pele se mostra macia, um tremor dos dois lados, e não era um tremor de frio, estavam quentes por dentro, “mas isso deve ser normal”. Onde estão as preocupações? De qual lado? Já talvez não saibam mais. Talvez. A cada vagão percorrido eles pensam mais sobre isso tudo e pensam como se deve pensar, por dentro, não de uma forma fútil e egocêntrica.
Ele a abraça, calmamente, como deve ser. Ela retribui. É um abraço longo, alguns cristais iluminam-se de verde, como não deixaria de ser. Eles se olham face a face, ele faz um pequeno carinho em seu rosto envergonhado...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Um trem, uma estação (cont 2.)

... nas costas dela ele fez menção de segurar o cabelo, ao mero toque de suas mãos ela fecha os olhos delicadamente, como se soubesse o que estava por vir. Mas, ela segue até o próximo vagão. Era um vagão escuro, iluminado por vaga-lumes encantados. Ela estava iluminada por eles, mas ele percebe que seu sorriso perfeito ilumina-o mais, por dentro.
O trem pára. Fim da linha? Não. Apenas uma nova estação, um novo estágio. Todos admiram a cena pela rua e não tem coragem de participar dela ativamente.
Enquanto isso, no vagão vaga-lume, eles se olham incessantemente, ela timidamente sorri, ele retribui de forma singela.  Nesse vagão, tinha uma porção de coisas diferentes. Nas paredes, molduras em branco, com tintas e fotos num recipiente, como se implorassem para serem colados e montados. Algumas fotos de paisagens e castelos começam a flutuar, querendo compor uma cena perfeita. Uma foto dela flutua e o rodeia por completo mas, ele não tira os olhos dela, fita-a com carinho, carinho gratuito. Um relógio na porta indica uma hora em números romanos ao contrário (como se alguma coisa ali fizesse sentido). Um pincel carregado de tinta verde lhe pinta o nariz, ela ri de uma forma doce, de uma forma doce ele retribui.
O trem parte em movimento, ele cai com o solavanco. Ela e os vaga-lumes somem, ele está no escuro, mas não se sente só, nem ela...

Um trem, uma estação (cont.)


E tendo a vida, sempre razão, flutuei por entre árvores, já conseguia ouvir o trem apitando freneticamente como se me avisasse onde devia ir. Já estava embrulha em jornais que não contavam verdades novas. Não preciso delas. Minhas verdades são receitas do que sou.
O trem diminuiu a velocidade, por entre as nuvens já o via. Encima dele a moça com a o aparelho de congelar pessoas, mirava aquilo em minha face, e não parava de “trecar”! Aquilo não me incomodava, eu era um misto de jornais umidificados pelas fofas nuvens que em envolviam. Ao descer, a última porta do trem se abre, lentamente. Eu caio como uma batata voadora enjornalada. Quem abriu a porta? Ela. Vi de relance quando a porta do outro vagão se fechava, deixando cair uma manta de cor ainda a definir. Tinha um perfume, de difícil definição. O ultimo vagão era um pequeno vagão de museu. Eram todas coisas novas.
Não tinha tempo para observar direito o que tinha, mas pude perceber que eram máscaras. Tenho certo medo de máscaras, saí correndo do vagão. Onde ela está? No próximo? Um flash. Não me cegou. Lá estava ela, sentada numa poltrona à Luiz XV. Olhava para a paisagem. Não quis sentar-me ao seu lado, preferi observar suas próximas atitudes que me indicasse um caminho a seguir. Ou não. Eu disse: Oi. Ela não me olhou nos olhos, mas vi que sorriu avermelhadamente. Isso é fofo. Eu gosto de coisas fofas, que aquecem por dentro, um flutuar por dentro sempre foi, das artes, a que mais me deixa bem.
Ela tinha um ar...que não consigo definir.
Mas, para onde vai esse trem? Olhei para o lado, pra ver se a paisagem me indicava um local conhecido, quando voltei o olhar para a poltrona, ela não estava mais. Terceiro vagão? Parti. Uma música estranha começava a tocar. Não um estranho ruim, diferente, como tudo que é bom deve ser. Ela estava parada no outro vagão. Ele tinha cor de anis. Ela estava de costas para mim... Aproximei-me, sem desviar o olhar desta vez. Ela não se mexia... toquei seu cabelo, tinha o mesmo perfume que outrora havia sentido. E...

domingo, 29 de maio de 2011

Um trem, uma estação


O som do trem partindo já pode ser escutado três estações ao longe. Ouve-se o tilintar dos sinos da estação. Eu não corri e o perdi. Foi bem melhor assim. Sentei-me no banco dela. Lá estava eu, só. O vento carregava as folhas de um jornal, datado de séculos, para lá e para cá. Nele, havia uma foto minha: PROCURA-SE. Eu olhei minha foto, e pensei:
- Me encontrei.
Havia naquele olhar um espectro de razão, de existência. Passei o polegar na foto e senti como se estivesse realmente me tocando. Uma foto, uma fotografia em branco e preto, num jornal secular me fez ver o quão ínfimo eu era. Me fez pensar que minhas promessas sobre mim mesmo foram quebradas pela única pessoa que me pode quebrar promessas: Eu. Eu não falo mais comigo.
De repente alguém senta ao meu lado, havia perdido o mesmo trem, que rumava a qualquer lugar. Dois passos de distância, observei-a atentamente. Ela não me viu, fez que não viu, ou mesmo não quis ver. Ela segurava em suas mãos algo... Uma máquina, um transportador de sonhos, um congelador de pessoas em imagens. Ela apontava aquilo para diversos lugares, a esmo. Eu observava. De repente ela apontou aquilo pra mim e fez “trec”!! me apavorei. Senti que algo havia mudado depois daquele flash. E foi.
Eu fui transportado para uma realidade estranhamente obscura, com uma vontade imensa de descobrir. Permito-me? Ou melhor, me permitirei? Não sei...
Apenas sei que enquanto voava por entre os jornais de fantasias, percebi que a foto que havia estado nele, era a mesma que o misterioso ser havia tirado há poucos instantes. Como? Não sei. Mas só sei que: “A vida tem sempre razão”.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

O cadáver metafísico.


Ele olha seu reflexo no espelho. Vê sua barba por fazer e sorri. Passa uma água no rosto semi-pálido, revigora-se feliz. Toma água como um líquido único e cristalino, além de gasoso. Senta-se na cama, pergunta a si mesmo o que fazer, mas já não era mais um “o que fazer da minha vida?” estava mais para: “o que fazer? Dormir? Ver TV? Comer?” ele preferiu se debruçar na janela e olhar o chão, sem pensamentos suicidas. Mas da janela do seu quarto ele viu um cadáver, estatelado no chão. Um cadáver metafísico, sem carne. Ele não se conteve e sorriu, ficou admirando aquele cadáver, justamente por se tratar de um. Ele sorriu de novo, agora não mais com os lábios, sorriu com a alma. E tudo resolvido. Um misto de furor e gastrenterite o tomou como seu.  O cadáver não lhe dizia mais nada, nem “oi”, nem “muito obrigado”,  nem nada mais, não lhe causou frio na barriga, nem na espinha e olha que hoje está frio. Ele se sentiu quente e remendado... um remendo novo e forte..nossa..como são bons esses remendos... O post hoje está pequeno. Isso mesmo..está bem de acordo com a pequenez.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Mil cruzamentos bipolares


Ela pára entre um cruzamento. São quatro os caminhos, pelo menos quatro. Ele sorri, os quatro caminhos lhe parecem muito bons, escolher não é o problema. Ele quer ficar mais tempo admirando e imaginando as infinitas portas de amor que os caminhos lhe proporcionam.
Ele está num cruzamento ainda maior, o de si consigo mesmo. Ele percebe uma bipolaridade perdida|econtrada em no seu âmago. E ele ainda sorri, pois admira essa bipolaridade tão sua, tão concreta, tão viva de belezas. Uma bipolaridade que não prejudica nem maltrata ninguém. Quantos caminhos, ele queria escolher todos. Ele pode, mas prefere escolher seus desejos, o desejo de focar...
Ele foca...ele aplaude.
Ele confunde.
Ao caminhar pelas estradas sente-se um cheiro de mel de laranja, repletas de flores. Elas tem um toque aveludado, o próprio vento o tem. É um vento aveludado e cremoso. Seus passos levam a diversos quereres... ele os quer. Assim, dessa forma.

A bipolaridade é sua... perde-se nas flores! São tantos tipos, cores e perfumes... encanta-se, vamos!

Algumas flores proibidas, outras venenosas, algumas cristalinas...outras insípidas...qual ele quer? Talvez nenhuma, apenas apreciá-las como um beija-flor...

Um beija-flor...
Um beija
Um flor
Um beijo de flor
Uma flor de beijo...

E beijo...

Beijo

e...

.  

domingo, 22 de maio de 2011

A bailarina


Vejam ela...
            Ela segue nítida no seu dançar. Ela dança na rua, uma rua de ladrilhos cor de anis. Ela parece flutuar em suas sapatilhas fosforescentes, repletas de furor. E eu a vejo, escrevo sobre ela como se cantasse perfeições. Não, ela não quer ser perfeita, ela quer dançar um ballet fermentado com idéias. Calma, ela dará um ‘grand jete’ acompanhem. De um lado a outro da rua. Olhemos.
Viram que perfeição? Não. Ela errou, quis errar, errou com um sorriso nos lábios. O importante não é sua dança, mas sim todos nós.
Vejam aquele senhor, segurando um lenço de cetim esverdeado, suas lágrimas jorram, deve ser sua filha, seu amor, sua perfeição, pra ele seu salto foi sublime.
Ela tirou alguém pra dançar na rua, a música parou, ela ditará o ritmo com suas passadas aleatórias.
Viram seu figurino? Não? Apenas eu vejo... capacidades além de mim. Ela veste um vestido de tule, magenta, uma meia calça cor de púrpura, mas suave, seus ombros esguios carregam pequenos guizos, sua sapatilha... Bem... É estranha, ela fala. Fala coisas simples, alguns tormentos, suas sapatilhas amam saltar sem rumo... experimentando isso. Esses saltos novos que levam a lugares desconhecidos e cheios de oportunidades. Cuidado bailarina, dance por eles, mas não caia nos passos em falso.
Vejam, ela tirou um moço para dançar mesmo, ele aceitou, mas antes a observa através de seus óculos mascarados de medos. Ela dá um giro, um beijo no ar e sorri para ele. Ele fala outra língua, uma língua só dele... Ela congela... Percebemos uma pequena lágrima escorrendo em seu olho azul... Ela fica parada, mas sem desmanchar o sorriso recém conquistado.
- vamos bailarina (exclamo).
Ela me olha, acena positivamente com a cabeça e segue a dançar repetindo passos. O moço fita-a com um desdém interessado, acende um cigarro e começa a estalar os dedos propondo um ritmo novo ou, pelo menos, diferente. Parece um blues, mas diferente, um blues-não-blues. Ela não quer dançar assim, a rua é dela, mas mesmo assim no seu íntimo percebe que era esse o ritmo que procura e que é difícil admitir que alguém pudesse lhe propor algo tão diferente e livre de estética fechada.
Ela ensaia uns passos, todos olham sem nada entender, mas não precisamos, a rua é dela.
E começam a dança, já no primeiro movimento ele a pega pela cintura e joga para o ar, muito alto, muito alto, muito alto. Enquanto ela sobe, ele nos olha com um olhar de quem sabe o que está fazendo. Ela surpreende, não cai, sim... a rua é dela. Ela flutua por entre seus pares de certezas e alguns coqueiros sem contexto, pessoas muito únicas. Ela vive assim. Quando finalmente toca ao chão, fica nas costas do moço. Ele não gosta, ele quer que ela surpreenda dentro da previsibilidade dele, para que ele possa cobrar mais surpresas e mais, e mantê-la sob o olhar fixo de seus medos lancinantes. Medos que ele não admite ter. Mas a rua é dela, ele sabe disso.
Ouçam, a música voltou, outra música. Mas ela não dança mais, suas sapatilhas falantes estão cansadas por hoje, querem pensar... querem reformar a rua... e sim.. a rua é dela. É dela a rua.