quinta-feira, 9 de junho de 2011

Um trem, uma estação: o vagão montanha-russa


Aninhando-se em meios aos gibis, ele escuta um barulho ensurdecedor vindo do próximo vagão. Ele corre para ver o que é. Quando abre a porta assiste, bestializado, uma montanha-russa. Era incompreensível para ele estar visualizando aquela cena. Era uma cena divertida e dantesca. Ela observava-o sem que ele percebesse. Havia apenas um carrinho, ele entrou, ela só olhava.
Aquele vagão era imenso, possuía todas as cores conhecidas, menos uma. Ele subiu, e começou a passear. O carrinho andava devagar, até que tudo ficou ensurdecedoramente azul. Fechou os olhos, quando abriu percebeu estar em meio a tudo que já vivera, como numa grande exposição de si mesmo. Desde sua lembrança mais remota (e ela clicava), viu seu primeiro brinquedo, sua primeira dança. Reviveu, num vídeo, a primeira vez que caiu de bicicleta, seu primeiro jogo de botão. Não havia como entender nada ali. Como tudo aquilo poderia estar acontecendo, começou a ficar emocionado e a montanha-russa deu um looping, não teve força, ou vontade, de gritar. (clic)
Chegou a sua adolescência (cujo não sentia saudade). Reviu seu primeiro amor (não correspondido), suas primeiras lágrimas e poemas escritos e impublicáveis, estavam todos ali, publicados no próprio carrinho. (clic)
Seu primeiro beijo com gosto de couve. Seu primeiro amor, correspondendo quando não mais havia razão.
Como que por mágica, pacientemente ela estava sentada ao seu lado e observava tudo com muito interesse. Então ele começou a mostrar algumas coisas que lhe eram caras, uma seleção de coisas bonitas e outras tristes (clic). Mostrou atitudes firmes e sérias, brincadeiras de roda e canções de pequeno. Ela sorria, sorria um sorriso lindo. Ela pegou de sua mão, a vontade de viver era grande. Ele sentia verdade ali. Algumas músicas, algumas lágrimas, algumas histórias que poucos sabem, alguns de si mesmo...

... ele queria reverter atitudes antigas, reviver seu primeiro texto... mas o passado...é melhor manuseá-lo com cuidado... mas revivê-lo, nunca!

Clic

...

E ela é uma flor.


...

sábado, 4 de junho de 2011

Um trem, uma estação: o vagão solitário.


... então ele ficou só, pensando seus pensamentos muito seus. Não a viu mais durante um pequeno intervalo de tempo, como o passar de um distraído fim de semana. Um perfume de rosas tomava conta de suas atitudes. Magicamente, surge-lhe um sofá, todo decorado com gibis antigos, ele deitou-se, aquela agitação do vagão parecia ter passado. Estava tudo se assentando e a solidão rodeada de pensamentos era-lhe, agora, muito bem vinda.
Começou a rememorar suas poucas vivências até ali, um pouco incomodado pela falta de referências dela, mas ele sabia que existiam e que eram muito internas. Mas ele sabia e tem convicção de que o que fosse bom deveria ser externado. Não conhecia receita, não mesmo. Mas, sobretudo, um manual de como agir consigo mesmo. Ele não foi atrás dela no próximo vagão, ficou a espera, a espera, a espera... Ele não sabia como esperar, portanto, teve que aprender e se conter. Ele se contém. Aproveita  o sofá e lê alguns gibis antigos que, de alguma forma, fizeram parte de seu passado. Ele estava cansado, precisava ver naquelas linhas coisas que pudessem lhe dar respostas, sim... Ele precisava de respostas.
De repente, alguns daqueles gibis começaram a ganhar vida, a dialogar com ele, sem nada lhe explicar, apenas perguntas a lhe fazer. Como agir? Ele não sabia, preferia ficar quieto no seu canto, esperando que algo acontecesse, um sinal, um aviso, ou mesmo um telefonema. Junto ao sofá dos gibis um telefone surge. Nele havia uma luz vermelha que piscava incessantemente, ele não entendia a razão. Ele queria agir com naturalidade diante de tantas coisas diferentes, “estranhas”, mas sabia que não poderia proceder assim. Um misto de angústia e insensatez lhe advertia de algumas coisas. Ele esperava... Ele espera, aquela luz vermelha continuava a piscar e ele? Bom, ele esperava que o telefone tocasse... Mas até então, tudo era silêncio. A não ser pelo fato de os gibis gritarem perguntas efusivas e destruidoras, ele precisava de algo mais palpável do que personagens de gibis, insanos.   

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Um trem, uma estação: o vagão de areia


... ela desfaz-se de seus braços e corre para próximo vagão. Já era outro dia, um novo outro dia. Ele encontra algo que não poderia ser, como nada ali. Era um vagão de areia, uma transição metafísica de suas inconstâncias. Tudo nele se movia, freneticamente. As paredes, o teto, ela, tudo era um movimento constante de perfeição introspectiva, como deveria ser.
Ela parecia gostar daquele vagão, ele se sentia confortável. Não era apenas um trem, eles estavam num momento sonhável. Objetos boiavam, ela estava sumindo, aparecendo em locais inesperados, ele não tinha o mínimo controle sobre nada e isso o fascinava. A palidez de sua face o encantava, ele queria mais um abraço, ela também. Seu sorriso iluminava todo o possível, sobretudo aquele momento. Ele parou, ela veio até ele, eles se abraçam. Naquele vagão não havia nada racional, puramente emoções vibravam. Ele a tocou suavemente com sua barba, ao som de uma música suave vinda de uma vitrola ali do canto. Seus lábios tocam-se suavemente, um misto de tremor lhes enchiam de verdade não pronunciada. O que era aquilo? Naquele instante ouve-se um pequeno coro saindo das paredes, acompanhando a música suave. O momento era suave. E no que pensavam? Talvez em nada, já que ali não havia razão inequívoca. Sentiam um furor púrpuro e calmo, dentro de sua leve loucura.
Trocaram poucas palavras, como deveria ser. Seu abraço era suave, como deveria ser... tudo ali deveria ser.
Olharam-se, com um pouco de timidez, um pouco. As paredes movimentavam-se cada vez mais rápido, como se fossem engoli-los, ou elevá-los. Uma suave brisa os tocava naquela manhã de um dia qualquer. Seus olhos diziam coisas impossíveis de ler, ou de ver, como não poderia deixar de ser.
Ela se revela pouco, apresentava-se em doses, poucas e pequenas doses, como se ele pudesse decifrá-la. Ele, estupefato, não conseguia nem analisar-se a si, quanto mais definir qualquer outra coisa naquele vagão mágico.
Talvez não haja necessidade de entender, ele aprendeu [talvez] que apenas sentir era mais simples e verdadeiro do que externar. Mas sim, ele não é dono da verdade suprema, cada vagão tem lhe provado isso, em doses [aí sim] cavalares. O tilintar de um relógio dizia que ela precisava ir... e ele? Bom, ele ...